Belmira, a “heroína improvável” na queda do Buffalo que matou 19 militares em MS
O avião explodiu em 18 de setembro de 1974, numa manhã de densa neblina em Ponta Porã

Na sala de jantar da casa de Belmira Vilhanueva, de 81 anos, em Ponta Porã, a página de jornal emoldurada com esmero conta notícias de uma heroína improvável no maior acidente aéreo de Mato Grosso do Sul. Ela é a moça que caminha perto dos destroços da aeronave Buffalo C-115-2366, da FAB (Força Aérea Brasileira), onde viajavam 20 militares.
RESUMO
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Belmira Vilhanueva, de 81 anos, é lembrada como a "heroína improvável" do acidente aéreo do Buffalo C-115-2366, que em 18 de setembro de 1974, resultou na morte de 19 militares em Ponta Porã. Ela salvou Shiro Ashiushi, o único sobrevivente, ao encontrá-lo gravemente ferido e levá-lo ao hospital. A tragédia, marcada por neblina intensa, causou grande comoção na cidade e resultou em luto oficial. Belmira, que estava visitando a família, recebeu honrarias da Aeronáutica e participa de homenagens no memorial erguido em memória das vítimas. O acidente, que envolveu falhas na comunicação do piloto e uma explosão devastadora, deixou uma marca indelével na história local.
Horas antes da fotografia, que ilustra a página amarelada, Belmira tinha corrido em direção ao acidente e conseguiu salvar Shiro Ashiushi, sargento da Aeronáutica e o único sobrevivente da tragédia do avião militar.
Em entrevista ao Campo Grande News, Belmira reviveu aquele 18 de setembro de 1974, o dia em que a mais densa das neblinas encobriu Ponta Porã.
“Era 7h20 da manhã quando ouvi um barulho diferente, um estrondo muito forte. Todo mundo saiu para fora e a neblina era intensa, ninguém via ninguém. Corri para o local, dentro de uma área do Exército. Fui guiada por Deus”, diz Belmira.
Na cena da tragédia, ela viu Shiro no chão, com as pernas quase decepadas e com sangramento na cabeça. Sem hesitar, correu em direção ao sobrevivente, conseguiu puxá-lo até perto do asfalto e parou uma caminhonete para levar o ferido ao hospital. No trajeto, acomodou a cabeça do sargento em seu colo.
Passados 52 anos, Belmira conta que não se vê como heroína, que tenha agido com bravura ou coragem. “Foi Deus colocando a mão. Se não o tivesse tirado daquele local do acidente, ele morreria. O avião explodiu poucos minutos depois. A Belmira não é corajosa, mas foi guiada por mãos espirituais. Sai de casa para comprovar a existência de Deus. Daquele dia em diante, passei a rezar o terço”.
Detalhe: ela morava em São Paulo e estava há poucos dias visitando a família em Ponta Porã.
Belmira conta que bateu à porta do hospital e uma enfermeira veio acudir. Depois, entrou em cena o doutor Astúrio Marques. “Um grande mestre na cirurgia e na Medicina”.
No dia do acidente, a preocupação dela com o destino do sargento foi registrada na matéria do jornal O Estado de São Paulo, publicada em 19 de setembro de 1974 e assinada pelos enviados especiais Carlos Manente e Hamilton de Souza.
“Belmira passou o dia inteiro preocupada com o sobrevivente que conseguira salvar, e ouviu muitos elogios dos moradores de Ponta Porã, transformou-se numa espécie de heroína da cidade”.
Ela ainda pediu que os jornalistas, que retornariam a São Paulo, avisassem a família de Shiro em Mogi das Cruzes (SP) e repassou um número de telefone.

O militar foi transferido para Campo Grande e Belmira veio visitá-lo. Ela conta que o encontro mobilizava as emoções. “Ficávamos perturbados e só chorávamos”. Ele teve as pernas amputadas.
Tantas décadas depois, o bilhete de Shiro segue como lembrança de um agradecimento emocionante.
“Obrigado pela sua intercessão de ter alcançado, com coragem e determinação, a mão de Deus para mim”. Na assinatura, o nome Shiro.
Em 30 de junho de 1976, a Aeronáutica entregou a Belmira a “Medalha Mérito Santos Dumont”, o “Pai da Aviação”, a alta honraria é concedida àqueles que, por suas qualidades ou seu valor em relação à Aeronáutica, forem julgados merecedores.
Ela também foi agraciada com o reconhecimento do 1º/15º GAV (Primeiro Esquadrão do Décimo Quinto Grupo de Aviação), o Esquadrão Onça, com sede em Campo Grande.
Datada de 17 de setembro de 1999, a placa, assinada pelo comandante Nelson Augusto Bacellar Gonçalves, menciona a coragem e o amor ao próximo, “demonstrados por ocasião do acidente aéreo de nossa aeronave C-115 2366, ocorrido em 18 de setembro de 1974, na cidade de Ponta Porã-MS”.
Belmira também participa das homenagens no memorial, erguido no local da queda para lembrar das vítimas. O monumento Votivo fica localizado na Rua Comandante Cardoso, ao lado do Parque dos Ervais, perto do Aeroporto Internacional de Ponta Porã.
Ele reproduz uma cruz e os 19 mortos são lembrados com pétalas pretas. A única pétala com cor diferente, vermelha, homenageia Shiro. Além dos nomes das vítimas, há uma frase de reflexão.
“Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois apenas como neblina que aparece por instante e logo se dissipa”.
O monumento, no caminho para o aeroporto, sempre chamava a atenção de Nivalcir Almeida, jornalista, professor e historiador. “Vim para a Ponta Porã em 1989, quando o Zahran conseguiu a concessão da TV. Via esse monumento. Era um mural branco, com vários nomes”.
Então, ele foi em busca de informações. “Aquele acidente de avião ficou na minha memória”. Mas a alta rotatividade no comando da área militar não ajudava a ter dados sobre a história de 1974.

“De alguns anos para cá, passou a ter solenidade no dia. Comecei a acompanhar, fazer gravações sobre curiosidades na fronteira e resolvi contar essa história", diz o pesquisador, que mantém o perfil Historiador Nivalcir no Instagram.
A procura despertou fragmentos de memórias coletivas, onde muita gente passou a falar sobre as lembranças da tragédia. “As pessoas vão se lembrando. Foi um episódio muito marcante para a cidade”.
Com o avanço dos anos, a história ganhou até a versão de que a aeronave chegou a derrubar a torre da igreja nesse voo às cegas. “Mas a igreja mais próxima fica a 500 metros do local e fica em outra direção”, diz o historiador. A queda, seguida por explosão, foi perto do Bairro da Granja.
Nevoeiro, explosão e luto – De acordo com a reportagem do Estadão, no último contato, o piloto comunicou que não haveria teto e, portanto, tentaria o pouso com uso de aparelhos. A aeronave era pilotada pelo coronel-aviador José Hélio Macedo de Carvalho, comandante da Base Aérea de Campo Grande.
Mas o Buffalo acabou batendo no fio de alta tensão, duas árvores e um poste de ferro. Conforme o registro, os 600 litros de combustível suplementar que o avião levava ajudaram na explosão. Sem bombeiros no município, as chamas foram combatidas pelo Exército. Depois, veio a localização e remoção dos corpos. A tragédia suspendeu todas as atividades em Ponta Porã. Os caixões chegaram de avião, também um Buffalo, no fim da tarde.

O jornal registrou que a tragédia fez o comércio fechar as portas em Campo Grande, local de onde a aeronave partiu, e o então prefeito Levy Dias decretou luto por três dias.
Em 2014, reportagem do Campo Grande News revisitou o acidente e entrevistou o fotógrafo Roberto Higa, que deveria ter embarcado no Buffalo, mas acabou salvo pelo atraso do motorista do jornal onde trabalhava.
No avião, estava praticamente todo o comando militar de Campo Grande. Os corpos vieram para a Capital em uma locomotiva que viajava sem fazer escala. Os 19 caixões foram velados no Círculo Militar, clube onde, dias antes, os mesmos militares dançavam em baile.
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