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Quando o mundo pede mais ação

Por Cristiane Lang (*) | 19/01/2026 08:30

Quando o mundo pede mais ação, ele não o faz com delicadeza. Não manda recados sutis, não espera que estejamos inspirados ou emocionalmente prontos. Ele simplesmente exige. Exige postura, decisão e responsabilidade. Há momentos em que a vida deixa pouco espaço para a contemplação e quase nenhum para a poesia. Não porque ela não seja importante, mas porque, antes dela, é preciso sustentar o chão.

Vivemos uma era em que sentimentos são amplamente legitimados — e com razão. Sentir é humano, sofrer é parte do percurso, refletir dá sentido à experiência. Mas existe uma fronteira delicada entre acolher emoções e permitir que elas nos paralisem. Quando crises se instalam, quando pessoas dependem de nós, quando decisões têm consequências reais e imediatas, a vida pede menos lirismo e mais ação consciente.

Há situações em que não dá para “ver no que vai dar”. Um problema financeiro grave, uma ruptura necessária, um conflito que já se arrasta, uma responsabilidade profissional que não admite improviso. Nesses momentos, a atitude séria não é frieza: é maturidade. É compreender que adiar decisões pode ser mais prejudicial do que escolher com medo. É aceitar que nem toda escolha correta vem acompanhada de alívio imediato.

A poesia da vida tem seu tempo. Ela mora nos detalhes, nos intervalos, nos respiros. Mas quando tudo está em risco, o belo precisa esperar. Não porque seja descartável, mas porque sobreviver — emocionalmente, moralmente, estruturalmente — é prioridade. Quem confunde sensibilidade com ausência de firmeza acaba pagando um preço alto: o da repetição dos mesmos problemas, agora agravados pela omissão.

Tomar atitudes sérias exige renúncia. Renúncia ao conforto do adiamento, à ilusão de que alguém fará por nós, à esperança ingênua de que o tempo resolverá o que só a ação resolve. Exige também coragem para lidar com a impopularidade, com o desconforto e, muitas vezes, com a própria tristeza. Decisões certas nem sempre são leves. Algumas doem profundamente, mesmo sendo necessárias.

Isso não significa abandonar a humanidade. Pelo contrário. Agir com seriedade é, muitas vezes, o gesto mais humano que existe. É proteger limites, preservar dignidade, interromper ciclos que machucam. É escolher o que sustenta a vida no longo prazo, mesmo quando o curto prazo cobra um preço emocional alto.

A poesia não desaparece nesses momentos — ela apenas aguarda. Ela retorna quando o caos é organizado, quando as feridas estão limpas, quando o caminho volta a ser seguro. E então, talvez, ela seja ainda mais profunda, porque nasce de alguém que não fugiu da responsabilidade de agir quando foi preciso.

Há tempos de sentir e tempos de decidir. Saber reconhecer quando a vida pede ação é um sinal claro de maturidade. Porque crescer também é entender que, às vezes, o mundo não quer versos — quer atitudes.

(*) Cristiane Lang, psicóloga clínica, especialista em Oncologia pelo Albert Eisntein.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.