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Cidades

Criada em MS e próxima de Major Carvalho, maior traficante do País soma R$ 1 bi

Karine Alves Campos foi criada em Corumbá, onde iniciou as conexões no mundo do narcotráfico

Por Silvia Frias | 16/01/2026 11:46

Criada em MS e próxima de Major Carvalho, maior traficante do País soma R$ 1 bi
Karine de Oliveira Campos, considerada uma das maiores traficantes do País (Foto/Reprodução/Piauí)

RESUMO

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Karine de Oliveira Campos, considerada uma das maiores traficantes do Brasil, construiu sua rede criminosa a partir de Corumbá, Mato Grosso do Sul. Com patrimônio estimado em R$ 1 bilhão, ela e o marido, Marcelo Mendes Ferreira, são procurados pela Interpol. A investigação da Polícia Federal revela que o casal coordenava remessas internacionais de drogas e tentava interferir em decisões judiciais através de subornos. Após escapar da prisão em 2019 usando a identidade da própria mãe, acredita-se que Karine esteja refugiada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Antes de a Polícia Federal passar a chamá-la de a maior narcotraficante do País, Karine de Oliveira Campos era só uma menina criada em Corumbá, cidade de fronteira onde os contatos valem tanto quanto dinheiro. Foi ali, segundo a PF, que ela entrou cedo no circuito do tráfico e ampliou relações que depois alcançariam portos, doleiros e advogados.

A família, ainda de acordo com a investigação, mantinha proximidade com o major Sérgio Roberto de Carvalho, personagem frequente nas narrativas do narcotráfico da última década. Em 2019, já no radar das operações, Karine conseguiu escapar da prisão em Campo Grande usando a identidade da própria mãe, Sandra de Oliveira.

Hoje, estima-se que o patrimônio dela e do marido, Marcelo Mendes Ferreira chegue a R$ 1 bilhão. O casal é considerado foragido da Justiça brasileira e foi incluído na lista da Interpol. Depois de escapar em 2019, a investigação aponta que Karine passou por Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia e, depois, desapareceu. A hipótese é que os dois estejam vivendo em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, destino apontado como refúgio de grandes traficantes e operadores financeiros internacionais.

Em Mato Grosso do Sul, pelo menos três cartas precatórias foram expedidas pela Justiça Federal, em 2019, 2024 e 2025, na tentativa de intimar Karine de processos em tramitação em Curitiba (PR), Itajaí (SC) e Santos (SP). Em todos os casos, o mesmo resultado: “mandado devolvido sem cumprimento”.

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Mandado de citação que não foi cumprido em Campo Grande, em 2024 (Foto/Reprodução)

História - A trajetória de Karine foi relatada em reportagem da Piauí este mês. Nele, consta como ela escapou da prisão durante a Operação Alba Virus (vírus ou veneno branco). No dia 27 de agosto de 2019, a PF cumpriu um dos mandados em casa no Bairro Carandá Bosque. No imóvel, uma mulher se identificou como Sandra de Oliveira, disse não estar com documento e assinou o recebimento do mandado.

A PF recolheu celular, papéis com anotações, um veículo e uma aliança com o nome “Karine”. Pouco depois, em outra cidade, a verdadeira Sandra era presa. Naquele endereço, segundo a PF, quem atendeu os policiais era Karine, apontada como principal alvo da operação. Sandra, detida em Itajaí (SC), é a mãe dela.

A investigação atribui a Karine e ao marido, Marcelo Mendes Ferreira, a coordenação de remessas internacionais, com envio de carregamentos por portos no Brasil. Mesmo com perdas operacionais e prisões de integrantes do grupo, a apuração indica que o casal manteve a estrutura e passou a concentrar esforços em medidas judiciais e articulações para derrubar prisões e decisões em diferentes processos.

No material reunido pela PF, um eixo aparece de forma recorrente: a tentativa de interferir em decisões da Justiça, por meio de intermediários, advogados e operadores financeiros. Em um dos relatos mais antigos, Karine teria afirmado, em conversa captada pela PF, que subornou um juiz com R$ 200 mil para recorrer em liberdade após condenação por tráfico na Bahia. O trecho aparece como referência de método, usado depois em disputas judiciais de maior escala.

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Mandado de 2025 que também não foi cumprido (Foto/Reprodução)

Em 2018, a defesa de Karine pediu o trancamento de uma ação penal na Bahia, sob argumentos de demora processual e ausência de apreensão de drogas com o casal. O pedido foi aceito pelo desembargador Luiz Fernando Lima e a ação foi encerrada em julho de 2019; no ano seguinte, as acusações contra Marcelo prescreveram, e o processo foi arquivado. O texto também registra que, mais tarde, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) abriu investigação contra o desembargador em outro caso, e a sindicância foi arquivada após aposentadoria compulsória.

A mesma lógica aparece em episódios narrados a partir de 2019. Relatórios citam que o grupo buscou, em diferentes momentos, decisões em instâncias superiores e discutiu pagamento de valores para obter habeas corpus. Um caso que aparece na sequência envolve André do Rap, apontado pela PF como parceiro comercial do casal no envio de cocaína.

Em 2020, o ministro Marco Aurélio Mello concedeu liminar que levou à soltura do traficante, decisão depois suspensa por Luiz Fux, já quando ele havia deixado o país. O material relata diálogos em que Karine comenta o episódio e menciona o valor de 5 milhões de dólares ligado ao habeas corpus, sem identificar destinatários.

Outro capítulo descrito nas interceptações envolve a tentativa de libertar um subordinado, Leonardo Costa Nobre, preso preventivamente em 2021. A PF aponta tratativas envolvendo advogado, familiares e valores citados como propina para obter decisão no TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região).

O habeas corpus foi concedido em 2022 e, quase um ano depois, em março de 2023, a PF cumpriu mandados de busca em endereços de investigados; na casa de um advogado houve apreensão de dinheiro em espécie, e o inquérito tramita sob sigilo no STJ (Superior Tribunal de Justiça).

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Mala de dinheiro apreendida em endereços mantidos pela organização criminosa, em 2019 (Foto/Arquivo)

No caso específico da Operação Alba Virus, a narrativa registra que Karine buscou novo habeas corpus no STJ em 2020, com argumento de ausência de provas e pedido de domiciliar por ser mãe de crianças. O pedido liminar foi negado naquele momento. Em agosto de 2021, o ministro Antonio Saldanha Palheiro concedeu habeas corpus para prisão domiciliar; segundo o texto, Karine não se apresentou para cumprir a medida.

Em 2024, ela voltou ao tribunal e, conforme o material, o ministro Marcelo Navarro Ribeiro Dantas revogou a prisão domiciliar dela e anulou a prisão preventiva de Marcelo, em decisão citada como mais um movimento favorável na disputa judicial.

Ao longo do período descrito, a PF também atribui ao casal uma logística capaz de movimentar recursos em diferentes estados, com uso de dinheiro vivo e operadores. Em delação citada no texto, um empresário afirmou que Marcelo teria comprado relógios para distribuição a servidores e funcionários ligados a pontos sensíveis do fluxo de cargas; o relato menciona investigação em andamento e não traz nomes.

Com mandados de prisão pendentes, a PF passou a apontar que Karine e Marcelo deixaram o Brasil e, posteriormente, suspeita que o casal esteja no exterior. No balanço apresentado no material, a PF estima que o patrimônio atribuído ao casal supere R$ 1 bilhão, com parte guardada em espécie e parte pulverizada em estruturas de ocultação.

A piauí encaminhou um pedido de esclarecimentos à defesa de Karine Campos e Marcelo Ferreira a respeito das sucessivas tentativas de corromper o Judiciário narradas nesta reportagem, mas não houve retorno.