ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
FEVEREIRO, SEXTA  27    CAMPO GRANDE 31º

Cidades

“Enterraram meu filho como indigente”, diz mãe de ex-atleta jogado de prédio

Família afirma que só foi informada ontem sobre a morte e questiona falta de contato antes do sepultamento

Por Bruna Marques | 27/02/2026 14:10
“Enterraram meu filho como indigente”, diz mãe de ex-atleta jogado de prédio
Ex-paratleta sul-mato-grossense Maicon Douglas assassinado no dia 13 de fevereiro (Foto: Arquivo pessoal)

A morte do ex-paratleta sul-mato-grossense Maicon Douglas de Jesus Almiron, de 35 anos, em Recife (PE), terminou com um desfecho que revoltou a família. O rapaz foi enterrado como indigente, mesmo portando documento de identidade.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O ex-paratleta sul-mato-grossense Maicon Douglas de Jesus Almiron, de 35 anos, foi enterrado como indigente em Recife, mesmo portando documentos de identificação. Ele morreu em 13 de fevereiro após ser arremessado do quarto andar de um prédio no bairro de Boa Viagem, mas sua família só foi informada duas semanas depois. Maicon era atleta da bocha paralímpica e representou o Brasil em competições internacionais. Ele estava vendendo balas no calçadão quando foi convidado por um homem para ir até um apartamento. No local, o suspeito teria tido um surto, jogado Maicon da varanda e, em seguida, se suicidado. A família questiona a falta de contato das autoridades antes do sepultamento.

Maicon morreu no dia 13 de fevereiro, após ser arremessado do 4º andar de um prédio no Bairro de Boa Viagem, na Zona Sul da capital pernambucana. O sepultamento ocorreu no dia seguinte. A família, que vive em Mato Grosso do Sul, só foi informada nesta quinta-feira (26).

A mãe, a cozinheira Marta Almorin, 48 anos, moradora de Campo Grande, diz que não consegue aceitar a forma como o caso foi conduzido.

“Disseram que ele faleceu no dia 13. Mas a gente só ficou sabendo ontem. Enterraram meu filho como indigente, como se ele não tivesse família”, afirmou.

Segundo ela, o delegado responsável informou que não conseguiu localizar parentes. “A única coisa que encontraram com ele foi a identidade. Se ele achou a identidade, automaticamente teria meu nome lá. Era só puxar os dados. Ele disse que não conseguiu contato com ninguém. Então enterraram meu filho como indigente”.

“Enterraram meu filho como indigente”, diz mãe de ex-atleta jogado de prédio
Cadeira de rodas motorizada utilizada por Maycon, registrada após o crime ocorrido em Recife (Foto: Reprodução)

Marta questiona por que a família não foi procurada antes do sepultamento. “No boletim de ocorrência está o nome completo do Maicon, a data de nascimento e meu nome também. Se ele tem a identidade, consegue todos os dados. Por que não fez isso? Por que não procurou a gente antes de enterrar?”

Ela reforça que o filho não era morador de rua. “Meu filho não é indigente. Ele tem família. Podia ter tido um velório digno. Eu não me conformo. Vou procurar meus direitos".

Procurado pelo Campo Grande News para comentar o questionamento da família sobre a falta de contato, o delegado Rodrigo Belo afirmou que sua função é conduzir o inquérito e encaminhá-lo à Justiça. Segundo ele, Maicon e os familiares são de outro estado e não havia como "adivinhar" o contato deles.

O delegado disse ainda que, sensibilizado com o caso, publicou um vídeo nas redes sociais na tentativa de localizar parentes. “Não tô entendendo o questionamento da família quanto a isso, se nem eles mesmo sabiam o paradeiro do seu familiar, como eu ia saber o paradeiro deles”, declarou.

Ele acrescentou que os procedimentos relacionados ao corpo após a morte são de responsabilidade do IML (Instituto de Medicina Legal), e que, depois que os familiares o procuraram pelas redes sociais, repassou o boletim de ocorrência e o contato de um servidor do órgão para que pudessem tratar das providências necessárias.

Vida independente e história no esporte - Maicon era ex-atleta da bocha paralímpica. Representou Mato Grosso do Sul em competições nacionais e internacionais. Em 2014, disputou os Jogos Parasul-Americanos em Santiago pela seleção brasileira principal. Foi bicampeão das Paralimpíadas Escolares e conquistou ouro nos Jogos Parapan-Americanos Juvenis de 2013, na Argentina. Em 2017, foi contemplado com o Bolsa Atleta Nacional, conforme registros da Fundesporte-MS.

A ex-treinadora Marli Cassoli acompanhou parte da trajetória dele no esporte e manteve contato mesmo após o afastamento das competições.

“Desde a pandemia, ele resolveu ir embora de Campo Grande e passou a viver de tempos em tempos em cidades diferentes”, contou.

“Enterraram meu filho como indigente”, diz mãe de ex-atleta jogado de prédio
Maycon Douglas durante competição de bocha paralímpica (Foto: Divulgação)

Segundo ela, Maicon morava sozinho, geralmente em hotéis, e pagava uma pessoa para auxiliá-lo nas atividades diárias. “Tentei fazê-lo mudar de ideia, mas ele tinha uma personalidade muito forte, opinião muito formada. Não conseguimos convencê-lo.”

Ele passou por São Paulo, Santa Catarina, onde ficou em Blumenau (SC), e depois seguiu para o Nordeste. Em Maceió (AL), ganhou visibilidade nas redes sociais quando a cadeira motorizada quebrou e uma campanha online garantiu a doação de um novo equipamento.

Depois, foi para Recife. “Em dezembro me ligou. Em janeiro ligou de novo. No dia 18 de janeiro me mandou fotos antigas nossas e brincou com o cabelo liso. Depois desse dia, não falei mais com ele”, disse Marli.

A notícia da morte chegou por meio de uma reportagem compartilhada nas redes sociais. “Uma amiga viu no Facebook uma matéria sobre um cadeirante que foi jogado da janela de um prédio em Recife. Mandou para mim. Parei o carro, fiquei em choque".

“Enterraram meu filho como indigente”, diz mãe de ex-atleta jogado de prédio
Maycon vendendo doces em via pública (Foto: Reprodução)

O crime - De acordo com a Polícia Civil de Pernambuco, Maicon trabalhava vendendo balas no calçadão da Praia de Boa Viagem quando foi convidado por um homem, que teria se mostrado comovido com a história dele, a ir até um apartamento próximo.

Dentro do imóvel, segundo a investigação, o morador teria tido um surto e arremessado Maicon da varanda do quarto andar. Uma mulher que estava no local conseguiu fugir. Após empurrar a vítima, o suspeito pulou do prédio. Maicon morreu na hora. O homem foi socorrido ao Hospital da Restauração, mas não resistiu.

O caso é investigado pela 3ª Delegacia de Polícia de Homicídios da Capital, vinculada ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa de Pernambuco.

Versões e questionamentos - Há divergências sobre a dinâmica exata da queda. “Algumas versões dizem que ele foi jogado com a cadeira motorizada. A cadeira é pesada, então há dúvidas sobre como isso aconteceu. Outras informações apontam que ele foi jogado e depois objetos também foram arremessados”, relatou Marli.

“Enterraram meu filho como indigente”, diz mãe de ex-atleta jogado de prédio
Maycon Douglas ao lado da treinadora Marli Cassoli durante competição das Paralimpíadas Escolares em MS (Foto: Arquivo pessoal)

Para Marta, no entanto, antes mesmo de respostas sobre o crime, há uma pergunta básica que precisa ser esclarecida. “Quero uma resposta. É o mínimo. Não entraram em contato com a família. Coisas acontecem nos Estados Unidos e a família fica sabendo aqui. E no Brasil dizem que não conseguem contato, mesmo com a identidade em mãos.”

Ela resume a revolta em uma frase: “Meu filho não era nada disso que estão insinuando. Ele tem família. Eu não me conformo".