ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JANEIRO, SÁBADO  31    CAMPO GRANDE 31º

Cidades

Mulheres quilombolas materializam sonho de padaria comunitária

Desejo antigo da comunidade avança com apoio de capacitações e produção para merenda

Por Inara Silva | 31/01/2026 10:44
Mulheres quilombolas materializam sonho de padaria comunitária
Quilombolas chegam para o trabalho na Padaria "Vó Arlinda" (Foto: Osmar Veiga)

Por décadas, a vida das famílias da Comunidade Quilombola Chácara Buriti, no distrito de Anhanduí, em Campo Grande, esteve diretamente ligada à terra. Primeiro na lavoura, depois na produção artesanal de tijolos em olarias e, mais recentemente, nas hortas comunitárias. Agora, uma padaria comunitária começa a ganhar espaço e a transformar a realidade local.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Mulheres quilombolas da Comunidade Chácara Buriti, em Campo Grande, realizaram o sonho de abrir uma padaria comunitária, batizada em homenagem à matriarca Vó Arlinda. Inaugurada em 2025, o espaço reúne familiares que produzem pães e outros alimentos com ingredientes regionais, como guavira e pequi, após capacitações promovidas por instituições parceiras. A padaria, que já possui alvará sanitário, planeja fornecer pães para escolas estaduais em 2026, integrando o PNAE. A comunidade, certificada como quilombola em 2005, mantém tradições e resistência em um território de 43 hectares, onde 57 famílias preservam sua história e cultura.

Inaugurada em agosto do ano passado, a Padaria Vó Arlinda – Centro Comunitário de Produção de Mulheres Quilombolas – é fruto de um sonho coletivo construído ao longo de anos de articulação. O espaço leva o nome da matriarca da comunidade, Arlinda Theodolina, falecida em abril de 2025, quatro meses antes da inauguração.

Conhecida como referência na culinária dentro da comunidade, ela transmitiu suas receitas caseiras às descendentes. “No nosso tempo era curau de milho, pamonha, franguinho caipira, mas tudo ela preparava com muito amor”, afirma a sobrinha Cleonice Ramos Rosa da Silva, hoje uma das colaboradoras da padaria.

Filha de João Antônio da Silva e Maria Theodolina de Jesus, fundadores da comunidade, Arlinda formou uma grande família ao lado do esposo Sebastião Domingos Rosa, também falecido. O casal teve 16 filhos.

Mulheres quilombolas materializam sonho de padaria comunitária
Dona Ilma, filha da matriarca Vó Arlina, e suas sobrinhas. (Foto: Osmar Veiga)

Trabalho em família - Atualmente, a equipe da padaria é composta por filha, netas e sobrinhas de Vó Arlinda que se revezam nas atividades.

“Aqui tudo é em família. Trabalhamos juntos, nos ajudamos e aprendemos juntos”, resume dona Ilma Theodolina Domingos, de 61 anos, filha de Vó Arlinda.

Apesar do orgulho de ver a padaria comunitária levar o nome da mãe, a saudade é grande. Dona Ilma fala com emoção e diz que a ausência ainda é difícil de aceitar.

“Era uma pessoa boa, maravilhosa, que não tinha briga com ninguém, sempre respeitou todo mundo, tinha carinho com filhos, com a família e com os vizinhos”, afirma.

As lembranças também estão ligadas à culinária, como as pamonhas e os bolos de goma. “Ela fazia um bolo de goma que assava no fogão a lenha na folha da bananeira. Coisa bem caipira mesmo”, relembra a filha.

Na padaria, Ilma atua ao lado das sobrinhas Janaina Nedina Domingos e Elaine Theodolina da Silva Rosa, além da cunhada Cleide Aparecida Rosa da Silva Domingos, de 60 anos, além de Cleonice, irmã de Cleide.

Mulheres quilombolas materializam sonho de padaria comunitária
Dona Ilma mostra o freezer onde a produção de pães é armazenada (Foto: Osmar Veiga)

Equipe em ação - Ao todo, 12 mulheres trabalham diretamente na produção de pães, pães de queijo e outros alimentos, muitos deles elaborados com ingredientes regionais, como guavira e pequi.

As moradoras participaram de capacitações promovidas por instituições parceiras, incluindo grupos ligados a universidades e ao poder público em geral, principalmente à Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural), que ensinaram técnicas de panificação e o aproveitamento de frutos do Cerrado.

“Antes, a nossa vida era só na lavoura. Depois teve a olaria, a horta… e agora estamos começando com os pães. É um sonho ter uma padaria aqui”, conta Cleide, nascida e criada na comunidade.

Os equipamentos utilizados foram conquistados ao longo dos anos por meio de doações e parcerias, permitindo que o grupo desse os primeiros passos rumo à produção em maior escala.

Mulheres quilombolas materializam sonho de padaria comunitária
Casas de moradores da comunidade quilombola Chácara Buriti (Foto: Osmar Veiga)

Sonho realizado - À frente da AQBuriti (Associação da Comunidade Negra Rural Quilombola Chácara do Buriti) está Lucinéia de Jesus Domingos Gabião, neta de Vó Arlinda. Segundo ela, o empreendimento está em pleno funcionamento, com alvará da Vigilância Sanitária.

Algumas receitas ainda passam por testes, mas, em 2026, a padaria deve começar a fornecer pães para escolas estaduais, como parte do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar).

Território e resistência - A Comunidade Quilombola Chácara Buriti existe há 96 anos, mas somente em 2005 recebeu a certificação oficial da Fundação Cultural Palmares. O território de 43 hectares tem titulação parcial do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e abriga 57 famílias.

“Nossos antepassados compraram esse pedacinho de terra para a gente viver. Desde então, daqui ninguém sai,” afirma Cleide.

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.