Casos de surto crescem e bombeiros passam a usar técnica do FBI em crises
Problemas psiquiátricos e tentativas de suicídio representam 10% dos atendimentos da corporação
O que fazer quando uma pessoa coloca a si mesma em uma situação perigosa, de forma consciente ou não? No primeiro curso de formação para agentes de segurança e profissionais de saúde que o Corpo de Bombeiros Militar realizou em Campo Grande, a principal lição foi que escuta, respeito e diálogo são mais importantes do que o uso da força nesses momentos.
RESUMO
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O Corpo de Bombeiros Militar de Campo Grande realizou seu primeiro curso de formação para agentes de segurança e profissionais de saúde, focando em técnicas de gerenciamento de crises inspiradas no FBI e na sensibilidade humana. O objetivo foi capacitar os participantes para lidar com situações de risco, como surtos psiquiátricos e tentativas de suicídio, que representam cerca de 10% dos chamados recebidos na cidade. O curso destacou a importância do diálogo, da empatia e do respeito, priorizando esses elementos sobre o uso da força. Com 58 participantes, incluindo bombeiros, policiais e servidores da saúde, o treinamento abordou técnicas como o rapport, que busca criar conexões de confiança para influenciar positivamente o comportamento das pessoas em crise. Além disso, foram simuladas diversas situações para preparar os profissionais a lidar com fatores sensoriais estressantes, como frio, calor e barulho. O curso reforçou a necessidade de atenção ao adoecimento mental, tanto em ambientes públicos quanto no sistema penitenciário, e destacou a vulnerabilidade dos próprios profissionais da segurança e saúde.
Coordenador da formação, o tenente Max Sousa Tosta está há 21 anos na corporação e confirma que casos assim estão cada vez mais frequentes. Segundo ele, cerca de 10% dos chamados recebidos em Campo Grande atualmente são para atendimento a pessoas em surto psiquiátrico ou que estão sofrendo e precisam de ajuda para escolher não tirar a própria vida. "É esse o índice há três meses, pelo menos", acrescenta.
O tenente explicou que o curso misturou uma técnica de gerenciamento de crises que é referência no mundo e vem do FBI, o principal serviço de segurança e inteligência dos Estados Unidos, com algo que é tão sofisticado quanto, mas do ponto de vista humano: a sensibilidade com o outro.
"O suicídio é multifatorial, a gente precisa ter empatia de entender o que a pessoa está passando, o que ela está sentindo e acreditar no que ela está nos contando. Quando é emergência psiquiátrica, temos que compreender o diferente, respeitar, interpretar alguns sinais", descreve o coordenador do curso.
A sensibilidade é importante até na percepção do que pode dificultar o atendimento. Frio, calor, chuva, barulho, por exemplo. "A gente estudou que esses fatores sensoriais podem ser estressantes na hora da ocorrência e como lidar com eles", continua Max. Houve simulações de diferentes situações, além de aulas com especialistas em saúde mental e com instrutores da Segurança Pública experientes e estudados no assunto.
A primeira edição do curso responde ao aumento da demanda às ocorrências na Capital. e ocorreu entre 27 e 29 de janeiro deste ano. Foram 58 participantes, a maior parte do Corpo de Bombeiros, mas também houve alunos da PM (Polícia Militar), PRF (Polícia Rodoviária Federal), Polícias Penais Federal e Estadual, além de servidores municipais e estaduais da Saúde.
Força é último recurso - Durante a cerimônia de formatura do curso, realizada nesta sexta-feira (30), o terceiro sargento da Polícia Militar, Adilton Mota, contou que mudou uma ideia antiga com o que aprendeu.

"O policial, quando vê uma situação dessa, quer resolver logo, quer tirar logo a pessoa dali. Mas não é assim. Você tem que trabalhar junto à cabeça daquela pessoa, ir 'desenhando' com ela o que está acontecendo. Não pode ter pressa, tem negociar, dialogar e ter empatia", falou.
Adilton tem 21 anos de serviço, mas nunca se deparou com esse tipo de emergência. Agora, ele relata se sentir mais preparado caso precise agir diante de uma.
Rapport - O agente da PRF, Sávio Hipólito Ferreira, foi um dos instrutores do curso. Ele ensina técnicas para criar conexão com pessoas há oito anos, principalmente as baseadas no rapport, uma palavra em francês do verbo rapporter, que significa "trazer de volta" ou "criar uma relação" e é utilizada na Psicologia.
Rodovias, presídio e entre os pares - O instrutor da PRF afirmou, ainda, ter notado que as ocorrências de tentativas de suicídio em rodovias federais e nas proximidades também têm sofrido aumento.
Aluna do curso e enfermeira do presídio federal da Capital, Jacquelinne Lima relata que essas emergências fazem parte da rotina do sistema penitenciário, mas que a maior parte não se concretiza. Em alguns casos, elas acabam sendo usadas como forma de negociação para conseguir algum benefício, o que torna esse tipo de atendimento diferente em comparação a outros ambientes. É preciso entender os sinais e saber reagir. "O adoecimento mental é uma realidade dentro e fora do presídio. A gente sabe que um presídio é um ambiente adoecedor e tem que dar o atendimento adequado", complementa a participante.

Tanto Sávio quanto Jacquelinne lembram que as instruções são importantes até para perceber sinais entre seus pares, reconhecendo que os trabalhadores das áreas da Segurança Pública e da Saúde estão entre as categorias mais vulneráveis, de acordo com estatísticas da OMS (Organização Mundial de Saúde).
Central 193 - O cabo do Corpo de Bombeiros, Uanderson da Silva Carvalho, está há 11 anos na corporação. Ele trabalha na Central 193 e faz o primeiro atendimento das ocorrências por ligação telefônica. Relata ter atendido mais de 100 chamados de emergência psiquiátrica desde que entrou no serviço público.
As principais funções do cabo são ouvir, coletar informações e direcionar. "Identifico os fatores de risco que levaram a pessoa àquela situação e, quando é alguém com sofrimento emocional, pergunto sobre os fatores de proteção, que podem ser a família, um amigo, até um pet", conta. Nos casos mais complexos, a ligação é transferida para um especialista de plantão, mas é algo que se evita, já que pode levar à desistência por parte de quem está do outro lado da linha.

É a primeira vez que Uanderson faz um curso assim. "Foi importante para lembrar que o importante é a gente se colocar no lugar da pessoa que precisa de atendimento", reforça.
O cabo é outro agente de força de segurança que confirma o aumento do número de atendimentos nos últimos anos, inclusive no número de surtos psiquiátricos. Sobre eles, destaca que é um trabalho que exige técnica e cuidados e sensibilidade para ninguém sair machucado.
"Precisamos preparar todos para uma possível intervenção, combinando sinais para o melhor posicionamento. Quando é preciso fazer uma contenção física, ela geralmente é feita com cinco pessoas para garantir total segurança. Imobilizamos o tronco e os membros com faixas, mas isso é o nosso último recurso. Ao mesmo tempo, tem que conversar e acalmar a pessoa também", finaliza.
Final de ano - Segundo a assessoria de imprensa do Corpo de Bombeiros, apenas em dezembro de 2025, os chamados relacionados a emergências psiquiátricas e tentativas de suicídio totalizaram 270. A reportagem solicitou mais dados para fazer um comparativo e aguarda retorno para acrescentar à matéria.
Procure ajuda – Em Campo Grande, o GAV (Grupo Amor Vida) presta apoio emocional gratuito a pessoas em crise pelo número 0800 750 5554. Também é possível buscar atendimento no Núcleo de Saúde Mental ou no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), ou pelos telefones 141 e 188 do CVV (Centro de Valorização da Vida). Em situações emergenciais, os números 190 da PM (Polícia Militar) e 193 do Corpo de Bombeiros podem ser acionados.




