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Política

Soraya embaralha o jogo e transforma o Senado em zona de risco

Enquanto o governo parece definido, alianças frágeis ameaçam virar o tabuleiro de 2026 em MS

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 30/01/2026 13:27
Soraya embaralha o jogo e transforma o Senado em zona de risco
Senadora Soraya Thronicke durante votação nas eleições de 2022 (Foto: Paulo Francis/Arquivo)

Um movimento ainda silencioso, mas acompanhado de perto nos bastidores da política sul-mato-grossense, começa a redesenhar o tabuleiro das eleições de 2026: a possibilidade de a senadora Soraya Thronicke (Podemos) aderir ao campo democrático progressista que gravita em torno da possibilidade de uma candidatura ao governo do Estado pelo PT, do advogado e ex-deputado federal Fábio Trad.

RESUMO

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A senadora Soraya Thronicke (Podemos) pode se aliar ao campo progressista em Mato Grosso do Sul, sinalizando possível composição com o PT para as eleições ao Senado em 2026. Eleita em 2018 na onda bolsonarista, Thronicke rompeu com a extrema direita e surge como alternativa após Simone Tebet ganhar projeção nacional. A disputa pelas duas vagas ao Senado tornou-se o principal ponto de tensão política no estado. Enquanto a sucessão ao governo está mais definida, com Eduardo Riedel (PP) buscando reeleição e Fábio Trad (PT) como principal opositor, as articulações para o Senado envolvem múltiplos interesses e alianças ainda instáveis.

Eleita em 2018 na onda mais intensa do bolsonarismo, Soraya rompeu com a extrema direita, mudou de partido e passou a ser vista, por interlocutores do PT, como um nome em processo de reposicionamento político. Fontes petistas ouvidas sob reserva avaliam que a senadora pode se unir ao deputado federal Vander Loubet (PT) para compor uma chapa competitiva às duas vagas do Senado por Mato Grosso do Sul, hipótese ainda embrionária, mas que ganhou tração nas últimas semanas.

Até pouco tempo, porém, o desenho pensado pelo PT no Estado era outro. A estratégia original previa uma chapa ao Senado formada por Vander e Simone Tebet (MDB), com Fábio Trad como candidato ao governo e Gilda Maria dos Santos, esposa do ex-governador e deputado estadual Zeca do PT, como candidata a vice.

Esse arranjo perdeu fôlego à medida que Simone Tebet deixou de ser tratada como peça regional e passou a integrar uma estratégia nacional conduzida diretamente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Diferentemente de eleições anteriores, Lula decidiu concentrar esforços em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, onde um ganho mais robusto pode ser decisivo em 2026.

Simone, que teve desempenho expressivo na disputa presidencial de 2022, é bem avaliada em pesquisas internas do PT e tem capacidade de atrair um eleitorado, especialmente feminino, que historicamente não vota em Lula. Levantamentos qualitativos também a apontam como competitiva contra o governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos.

A indefinição ganhou contornos mais claros após declaração da ministra Simone Tebet, concedida nesta sexta-feira em São Paulo. Ela confirmou que já iniciou conversas com o presidente sobre seu papel nas eleições de 2026 e que deixará o Ministério do Planejamento e Orçamento até 30 de março.

Segundo Simone, a única hipótese eleitoral discutida até agora foi uma candidatura ao Senado Federal, sem definição de Estado. Ao afirmar que “política é missão”, a ministra disse ter colocado sua vontade pessoal em segundo plano para se colocar à disposição do projeto nacional. Ela ressaltou que nenhuma decisão foi tomada, que novas conversas ocorrerão antes do Carnaval e que não tratou de mudança partidária, cargos ou disputas por governos estaduais. A única certeza, segundo ela, é que não permanecerá no ministério e será candidata em 2026.

É nesse vácuo que o nome de Soraya passa a ser visto como alternativa viável para o Senado em Mato Grosso do Sul. Eleita pelo PSL, partido ao qual o ex-presidente Jair Bolsonaro estava filiado em 2018, e dele afastada às vésperas das eleições de 2022, a senadora pode reforçar a ofensiva do Palácio do Planalto para evitar que a extrema direita conquiste maioria no Senado a partir de 2027.

Nos bastidores, é consenso que um dos principais objetivos da direita é ampliar presença na Casa para tensionar a relação com o Supremo Tribunal Federal e viabilizar processos de impeachment contra ministros da Corte.

Governo mais definido, Senado em ebulição

Se o Senado segue como território instável, a disputa pelo governo do Estado aparece hoje como o desenho mais sólido do tabuleiro. O governador Eduardo Riedel (PP) deve buscar a reeleição com o atual vice, José Carlos Barbosa, o Barbosinha (PSD). Do outro lado, Fábio Trad deve oficializar chapa com Gilda na vice. O martelo deve ser batido na primeira quinzena de fevereiro, em Brasília, em reunião de Trad com a cúpula do PT e o presidente.

Trad tem reiterado que sua candidatura pretende debater modelos de desenvolvimento e impedir um fato inédito na história política de Mato Grosso do Sul: a permanência do mesmo grupo no comando do Estado por 16 anos consecutivos. Reinaldo Azambuja (PL) e Eduardo Riedel exercem influência direta sobre o poder estadual desde 2015. algo já incomum no cenário local, e, se mantidos, estenderiam esse ciclo até 2031.

Advogado criminalista, professor universitário e deputado federal por três mandatos, Fábio Trad sustenta sua pré-candidatura a partir de um discurso que combina trajetória técnica, produção legislativa e crítica institucional. No Congresso, foi reconhecido como um dos parlamentares mais atuantes de sua geração, com participação central em reformas estruturantes, como a presidência da comissão de reforma do Código de Processo Civil, e protagonismo em projetos de forte impacto social, entre eles a criminalização do stalking, a tipificação autônoma do feminicídio e normas de combate à violência contra pessoas em situação de vulnerabilidade.

Ao ingressar no PT, Trad afirma ter feito uma escolha ideológica clara em defesa do campo democrático, sustentando que Mato Grosso do Sul vive um processo de “anestesiamento” do debate público e que a permanência prolongada do mesmo grupo no poder esvaziou a comparação entre modelos de gestão.

Dança de cadeiras como método

O reposicionamento de Soraya não é exceção, mas parte de um rearranjo mais amplo que envolve praticamente toda a cúpula política do Estado desde 2018. Riedel e seu padrinho político, o ex-governador Reinaldo Azambuja, eleitos pelo PSDB, migraram mantendo a aliança: Riedel para o PP e Azambuja para o PL.

No campo adversário, o ex-deputado Renan Contar, que disputou o governo em 2022 pelo PRTB, ingressou no PL e passou a integrar o núcleo da direita bolsonarista estadual. Já Fábio Trad passou por MDB e PSD antes de se filiar ao PT há cinco meses, tornando-se a principal aposta da esquerda na disputa pelo governo.

A alta rotatividade partidária, longe de ser detalhe, ajuda a explicar por que o Senado se transformou num campo minado, onde alianças formais convivem com desconfiança permanente e acordos são testados até o último momento.

O Senado como zona de tensão

No campo da direita, Contar afirma que o PL trabalha com a estratégia de lançar dois nomes ao Senado com base em pesquisas internas. Segundo ele, os levantamentos mais recentes colocam seu nome e o de Reinaldo Azambuja no topo, e o acordo, avalizado pela direção estadual e pela cúpula nacional do partido, seria respeitado até as convenções. Os dois nomes que estiverem melhor avaliados, segundo ele, levam as vagas do PL.

“Se o critério for pesquisa, isso precisa ser cumprido”, afirmou o deputado em entrevista ao Campo Grande News, acrescentando que confia no entendimento firmado com Azambuja.

Nos bastidores, porém, a leitura é menos linear. Fontes avaliam que Contar tende a disputar o mesmo eleitorado da extrema direita regional que Reinaldo passou a cortejar após deixar o PSDB. Caso o senador Nelsinho Trad chegue às vésperas das convenções em posição confortável nas pesquisas, cresce a avaliação de que Azambuja, que afinal comanda o partido, pode optar por apoiá-lo como segundo nome ao Senado, reduzindo o risco de canibalização de votos.

Há ainda outra variável sensível. A pré-candidatura de Fábio Trad ao governo, inicialmente vista como obstáculo aos planos do irmão para a reeleição ao Senado, passou a ser lida como possível fator de instabilidade caso Nelsinho seja preterido pelo grupo governista e decida correr por fora. Nesse cenário, uma atuação em sintonia, ainda que informal, com o campo democrático progressista poderia contaminar o debate majoritário e introduzir incertezas na reeleição de Riedel.

Tabuleiro aberto

Com a sucessão estadual relativamente estabilizada, é no Senado que se concentra hoje o maior grau de incerteza do tabuleiro político sul-mato-grossense. A indefinição sobre o destino eleitoral de Simone Tebet, o reposicionamento de Soraya Thronicke e a fragilidade dos acordos no campo da direita transformaram a disputa pelas duas vagas em um ponto de convergência entre interesses nacionais e cálculos regionais.

Até as convenções, nenhuma das peças se considera definitivamente posicionada. O cenário indica que a eleição para o Senado em Mato Grosso do Sul seguirá como o principal eixo de tensão de 2026, um jogo aberto, sujeito a movimentos silenciosos e traições, rearranjos de última hora e decisões tomadas longe dos holofotes.