Dentro da Máxima, curso de encanador vira aposta na ressocialização
Projeto capacita 140 presos em manutenção hidráulica e abre chance de trabalho futuro
Em um ambiente marcado por grades, rotinas rígidas e poucas oportunidades de mudança, qualquer atividade que quebre a monotonia do sistema prisional costuma ganhar outro peso. Na Penitenciária Estadual de Segurança Máxima Jair Ferreira de Carvalho, em Campo Grande, um curso de encanador hidráulico começou a movimentar parte da unidade e a despertar expectativas entre internos que enxergam na qualificação uma possibilidade de recomeço fora dos muros.
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A Penitenciária Estadual de Segurança Máxima Jair Ferreira de Carvalho, em Campo Grande, implementou um curso de encanador hidráulico para 140 detentos. A iniciativa, fruto de parceria entre Águas Guariroba, Agepen e Governo do Estado, visa capacitar os internos em técnicas de instalação e manutenção de tubulações. O programa, que conta com certificação do Senai, seleciona participantes com bom comportamento de um pavilhão específico para recuperação de dependentes químicos. Além da formação profissional, o projeto busca reduzir o consumo de água nas unidades prisionais e proporcionar aos detentos uma perspectiva de futuro após o cumprimento da pena.
A capacitação reúne 140 presos selecionados entre diferentes unidades do sistema prisional da Capital. A proposta é ensinar técnicas de instalação e manutenção de tubulações, além de conceitos sobre tratamento e uso consciente da água. Mais do que uma aula técnica, o curso surge como uma oportunidade de adquirir um ofício e planejar um futuro diferente após o cumprimento da pena.
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Entre os participantes está Alisson Souza da Silva, que cumpre pena há três meses. Ao comentar sobre o curso, ele diz que a principal expectativa é sair do presídio com uma profissão. “Quando eu estiver lá fora, não vou ficar pensando no que vou fazer para sustentar meus filhos. Vou ter uma profissão. Não vou precisar aprontar ou mexer com coisa errada”, afirma.
Segundo ele, a possibilidade de trabalhar e levar um presente para o filho com o próprio dinheiro tem um significado especial. “É diferente. É trabalhar e comprar com o meu trabalho”.
O menino tem 12 anos. Ao falar dele, Alisson se emociona e afirma que a principal meta é não voltar mais ao sistema prisional. “Eu não quero mais entrar dentro de uma viatura como detento. Isso é triste, dá uma agonia”.
Para o interno, o curso já representa uma mudança na forma de enxergar a própria história. “A vida errada não leva a lugar nenhum. Agora eu quero viver outra história”.
Os participantes da capacitação foram selecionados entre presos que fazem parte de um pavilhão específico voltado à recuperação de dependentes químicos, condenados por tráfico de drogas. O espaço funciona com regras e rotina diferentes dentro da unidade.
Segundo o diretor do presídio, Milson da Silva Caetano, os internos precisam ter bom comportamento disciplinar para participar da iniciativa. “Na ficha deles, a avaliação precisa ser considerada ótima ou boa”, explica.
Ele afirma que a proposta vai além do aprendizado técnico. “Esse conhecimento pode ir além do que eles aprendem aqui dentro. Vai servir para o dia a dia deles, para a família e para a convivência em sociedade”.
Durante as aulas, os participantes aprendem desde conceitos sobre consumo consciente de água até técnicas corretas de instalação e manutenção de encanamentos. O objetivo também é substituir práticas improvisadas que muitos conheciam apenas de forma informal.

“Muita gente faz esse tipo de serviço de forma artesanal, improvisando, colando um cano ou adaptando alguma peça. No curso eles aprendem a fazer da maneira correta, com técnica”, afirma.
Dentro do contexto do sistema prisional, iniciativas desse tipo também têm um significado simbólico. “É uma forma de mostrar para eles que ainda fazem parte da sociedade e podem aprender uma profissão”.
Quem acompanha de perto o impacto dessas atividades é o psicólogo Luciano da Silva, que trabalha há seis anos na unidade. Para ele, cursos e atividades educacionais ajudam a romper a sensação de estagnação que muitos internos enfrentam.
“Dentro de um contexto que muitas vezes envolve superlotação e falta de perspectiva, ter algo diferente para fazer muda muita coisa”, explica.
Segundo ele, o trabalho e o estudo também têm reflexo direto no cumprimento da pena. As atividades geram remição, mecanismo que permite reduzir o tempo de prisão conforme a participação em cursos ou trabalho.

Mas o impacto, segundo o psicólogo, vai além da contagem de dias. “Essas atividades abrem novas perspectivas. Muitos acabam descobrindo coisas que não conheciam, às vezes por falta de formação ou de vivências familiares”.
Na convivência diária, ele relata que mudanças de comportamento começam a aparecer. “Eles passam a conviver em um ambiente mais humano e acolhedor, principalmente quando estão entre pessoas que compartilham a mesma intenção de mudança”.
O processo também contribui para o desenvolvimento de habilidades sociais importantes para o retorno à sociedade. “Eles aprendem a lidar melhor com conflitos, ouvir críticas e se posicionar de forma mais equilibrada”.
Essa capacitação conta com certificação do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e é resultado de parceria entre a concessionária Águas Guariroba, a Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário) e o Governo do Estado.
Segundo o diretor-presidente da Águas Guariroba, Gabriel Buim, a iniciativa surgiu após um diagnóstico feito nas unidades prisionais da Capital. Apesar da população carcerária permanecer praticamente estável, o consumo de água vinha aumentando.
Equipes da concessionária visitaram as unidades durante cerca de dois meses e identificaram diversos pontos que precisavam de manutenção, como chuveiros, válvulas de descarga e torneiras. “A partir disso vimos a oportunidade de juntar o útil ao agradável”, explica.
No modelo criado, a concessionária fornece materiais, equipamentos de segurança e uniformes para as aulas. A capacitação técnica é realizada pelo Senai, enquanto a seleção dos participantes fica a cargo do sistema penitenciário.
Além da formação profissional, a expectativa é que os próprios internos possam realizar pequenos reparos nas unidades, ajudando a reduzir desperdícios e custos de manutenção. A estimativa é de economia de cerca de 20% nos gastos relacionados ao consumo de água no sistema prisional.
Após essa primeira etapa, a proposta é ampliar o programa para outras instituições da Capital.
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