No Marcos Roberto, igreja acolhe quem vive na rua com banho e café quente
Iniciativa no bairro atua no resgate da dignidade humana com suporte psicológico

Enquanto a cúpula da Igreja Católica em Mato Grosso do Sul discutia as diretrizes da Campanha da Fraternidade 2026, que este ano foca em "Moradia Digna", no Bairro Marcos Roberto, em Campo Grande, o debate ganhava rosto, cheiro e prato de comida.
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A Igreja Santa Teresinha do Menino Jesus, no bairro Marcos Roberto em Campo Grande, promove mensalmente uma ação de acolhimento a pessoas em situação de rua. O projeto, iniciado há quase um ano, oferece banho quente e café da tarde, enfrentando resistência da vizinhança e sobrevivendo através de doações e trabalho voluntário. A iniciativa, liderada pelo padre Gustavo Winkler, conta com apoio do Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS) e já registra casos de sucesso, com pessoas retornando às suas famílias. O projeto alinha-se à Campanha da Fraternidade 2026, que aborda o tema "Moradia Digna" e questões sociais mais amplas.
Na tarde desta quinta-feira (12), na Comunidade Santa Teresinha do Menino Jesus, o "gesto concreto" veio em forma de café da tarde, banho quente e uma tentativa insistente de devolver dignidade a quem fez da calçada o seu endereço.
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A ação, que acontece religiosamente nos últimos sábados de cada mês há quase um ano, tornou-se o braço prático da Paróquia São José de Anchieta para enfrentar uma realidade que incomoda quem está dentro do templo.
"Tudo começou de uma incomodação ao sair da missa e ver a quantidade de pessoas em situação de rua no Marcos Roberto, Jockey Club e Piratininga", conta o padre Gustavo Winkler.
Para manter o projeto de pé, a igreja lida com um inimigo silencioso: a resistência de quem mora ao redor. Joana Silva, coordenadora da Pastoral Social, não esconde as cicatrizes da intolerância vizinha.
"Enfrentamos um obstáculo que é a vizinhança que não concorda. A gente se pergunta: o que é melhor, salvar uma pessoa ou matar? Porque é o que as pessoas pedem: 'ah não, esse pessoal tem que morrer'. Mas, como cristãos, pensamos em salvar vidas", desabafa Joana.
O projeto sobrevive exclusivamente de voluntariado e doações. No local, foram construídos banheiros específicos para o banho dos acolhidos. "A igreja não tem dinheiro, vive de dízimo e doação. O lanche que você vê aí, cada centímetro, é doado", reforça a coordenadora.
Embora a Campanha da Fraternidade 2026 fale sobre o déficit habitacional (estimado em 114 mil novas moradias em Campo Grande até 2035), para quem atua na ponta, o conceito de "casa" é mais complexo.
Para o padre Gustavo, a situação de rua muitas vezes não é apenas a falta de uma chave na mão. "A casa deles está desestruturada. Moradia digna também fala de violência doméstica, educação e iluminação pública. Queremos criar o vínculo para que, no momento em que a pessoa se sentir à vontade para ser resgatada, estejamos ali", explica o pároco.
A ação conta com o apoio do SEAS (Serviço Especializado em Abordagem Social), que realiza a busca ativa e garante encaminhamentos para unidades de acolhimento. Durante o evento deste sábado, um dos acolhidos, que preferiu não se identificar, decidiu que aquele era o dia do basta: aceitou a ajuda técnica para tentar o caminho de volta para a família.
Valdete Nascimento, coordenadora de pastoral, celebra as pequenas vitórias acumuladas em sete meses de projeto. "Já tivemos pessoas que foram acolhidas, mudaram de vida e voltaram para suas famílias. Quem quiser ajudar, o espaço está aberto", convida.
Jeferson foi uma das pessoas atendidas que aceitaram o acolhimento para reabilitação. "A vida que eu levo não é vida para ninguém. Sou adicto há muitos anos, tive recaída, mas tenho família e profissão. Preciso de uma mudança, essa ação me motivou e decidi mudar para voltar à minha família", desabafou.
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