Sem transporte, famílias da zona rural improvisam para manter filhos na escola
Falta de contrato deixou estudantes de assentamentos e fazendas sem transporte público
A falta de contrato do transporte escolar que atende assentamentos e fazendas da zona rural, a cerca de 30 quilômetros do Centro de Campo Grande, obrigou pais a improvisarem nesta terça-feira (10). Quem tinha veículo próprio levou os adolescentes de carro e ainda ofereceu carona a vizinhos. Já as famílias sem condições financeiras mantiveram os filhos em casa, à espera de uma solução por parte do Governo do Estado.
RESUMO
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A falta de contrato do transporte escolar em assentamentos e fazendas da zona rural de Campo Grande tem afetado cerca de 40 estudantes que precisam se deslocar diariamente até 30 quilômetros para frequentar a escola estadual. Famílias com veículo próprio improvisam caronas, enquanto outras mantêm os filhos em casa. O problema atinge principalmente alunos do Ensino Médio do Assentamento Estrela, que frequentam a Escola Estadual Dolor Ferreira de Andrade. A Secretaria Estadual de Educação informou que o atraso na contratação do transporte será regularizado ainda esta semana, com reposição dos dias letivos perdidos.
O Campo Grande News percorreu o Assentamento Estrela, localizado entre Campo Grande e Jaraguari, após uma solicitação recebida pelo canal Direto das Ruas. Separados apenas por uma pequena ponte de madeira, os assentados dos dois municípios enfrentam o mesmo problema: a ausência do ônibus escolar.
Os dois assentamentos que levam o mesmo nome reúnem mais de 100 famílias. Cerca de 40 adolescentes saem diariamente, de segunda a sexta-feira, rumo a uma escola estadual situada no Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian. O trajeto ultrapassa 30 quilômetros entre ida e volta, e o ônibus costuma passar pelo assentamento por volta das 5h.
Apesar de concentrar tantas famílias, a região conta com apenas uma escola que atende alunos do Ensino Fundamental. Todas as crianças do Assentamento Estrela seguem o mesmo percurso educacional: iniciam os estudos na escola rural e, posteriormente, passam a frequentar a Escola Estadual Dolor Ferreira de Andrade, em Campo Grande. Mesmo para chegar à unidade rural, o deslocamento também depende de transporte escolar. Segundo os relatos, o transporte para a Escola Municipal está normal.
A técnica florestal Crispina Lercia Brites Nogueira, de 54 anos, contou que a filha, de 17, cursa o 3º ano do Ensino Médio e, na manhã de segunda-feira (9), aguardou pelo ônibus que não apareceu. Como está de férias, Crispina decidiu levá-la de carro para evitar que perdesse mais um dia de aula. Duas vizinhas aproveitaram a carona para chegar à região urbana.
“Ela estava muito ansiosa para ir à aula. Hoje eu acabei levando porque elas queriam saber em qual sala os amigos ficariam, escolher lugar. São muitos alunos, né? Ela gosta de sentar na frente”, relatou a mãe.
Segundo Crispina, o gasto com combustível chega a R$ 50 por dia. “Eu levei só hoje e espero que resolvam logo para o ônibus voltar a funcionar. Eles não podem perder aula, ainda mais no terceiro ano, que tem vestibular. Tem muitos pais que não têm condições de levar, principalmente quem mora em fazenda”, disse.
A cerca de dois quilômetros da casa de Crispina vive Maria das Dores, de 37 anos. A filha dela iniciará o 2º ano do Ensino Médio em uma escola da Capital. “Desde o ano passado ela pega o ônibus para a cidade. Ela não foi para a escola nem ontem nem hoje. Sem ônibus, não tem o que fazer. Eu não tenho carro, não tenho como levar”, contou.
Maria lembra que, em outro momento, chegou a ser discutida a implantação de uma escola de Ensino Médio no Assentamento Estrela, em Campo Grande. O projeto, segundo os moradores, não avançou. “Isso evitaria duas horas dentro de um ônibus e o risco de enfrentar a rodovia todos os dias. Já teve acidente aqui perto. A gente fica sempre preocupado. Fora o cansaço: eles saem daqui às 5h para começar a aula às 7h e só chegam em casa depois das 13h”, relatou.
De acordo com Crispina, a proposta previa uma escola que reunisse ensino fundamental e médio. “Desde 2022 nós lutamos por essa escola. Sempre defendemos que fosse uma unidade conjugada entre município e Estado, para que as crianças não precisem sair daqui e ir para Campo Grande”, afirmou.
A confeiteira Clarilaine Souza Marques, de 41 anos, também relatou dificuldades. Ontem e hoje, o filho, de 17, recebeu o conteúdo por meio de colegas que conseguiram ir à escola. “Todo ano acontece isso. É sempre a mesma coisa: o ônibus não vem e só regulariza depois de um tempo”, lamentou. Segundo ela, cerca de 40 adolescentes utilizam o transporte escolar.
Moradora do assentamento há cerca de seis meses, Edivânia Daniel Amorim, de 28 anos, mãe de quatro crianças, contou que dois filhos estudam na escola municipal. "A gente não sabe ao certo. Para Campo Grande, falaram que não veio. Para a escola rural, meu filho foi hoje de manhã, então parece que está passando, mas não é claro”, relatou.
Mesmo assim, ela elogia a escola rural. “O ensino é ótimo, a educação é maravilhosa. Eles entram às 8h e voltam no fim da tarde. Da escola daqui eu não tenho do que reclamar”, afirmou.
Edivânia também falou sobre as dificuldades da rotina familiar. Antes de se mudar para o assentamento, vivia de aluguel em Campo Grande e precisou escolher entre pagar a moradia ou garantir o sustento dos filhos. “Aqui não é fácil, mas foi o que Deus preparou pra gente”, disse. O marido conseguiu emprego recentemente e passa longos períodos fora, ficando até 30 dias viajando.
Outra mãe ouvida pela reportagem foi Angélica Camargo, de 36 anos. A dona de casa contou que este seria o primeiro ano da filha na rede estadual, mas, como a família deve se mudar do assentamento para o bairro Pênfigo, em Campo Grande, a adolescente nem chegará a utilizar o transporte escolar.
“Ela estava com a mochila pronta, tudo organizado, mas o ônibus não passou. Como no início do mês vamos mudar, acabei não me preocupando tanto com isso também”, relatou.
Em nota, a SED (Secretaria Estadual de Educação) informou que o processo de contratação do transporte escolar destinado ao atendimento desses alunos sofreu atraso, mas deve ser regularizado ainda nesta semana. A pasta garantiu ainda que os dias letivos perdidos serão repostos, a fim de minimizar os impactos no calendário escolar.
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