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Comportamento

Em 48 anos de estrada, grupo já viu até gente voltar a andar em "folia"

Companhia 3 estrelas de Santo Reis, de Cassilândia, resiste e se nega a deixar tradição morrer

Por Natália Olliver | 06/01/2026 07:33

Quem vê o grupo de amigos festejando a Folia de Santo Reis não imagina o que eles já viram na vida. Há 48 anos de estrada, milagres não faltaram e até pessoas voltando a andar depois de rezas eles já presenciaram. Juntos, todos dedicam quase 12 dias para não deixar a tradição morrer.

RESUMO

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A Companhia 3 Estrelas de Santo Reis de Cassilândia celebra 48 anos de tradição, levando música e fé por diversas cidades. O grupo, liderado pelo mestre Jerônimo José de Paula, de 74 anos, teve início após uma promessa pela cura de sua filha, que sofria de problemas na medula. Ao longo de sua trajetória, a companhia testemunhou diversos milagres, incluindo o caso de uma menina que voltou a andar após receber a bandeira do grupo. Com membros dedicados, como o palhaço Elivom Santos Tico, há 40 anos na função, o grupo mantém viva a tradição, percorrendo estados como São Paulo, Goiás e Mato Grosso.

O mestre da Companhia 3 Estrelas de Santo Reis de Cassilândia, Jerônimo José de Paula, conta que tudo começou com uma promessa. A filha estava doente, com problemas na medula. Na época, ele disse que faria uma festa de Reis para que ela se recuperasse. O pedido foi atendido.

Mas a história com a festa de Santo Reis não começou aí. Desde os 12 anos, Jerônimo tocava em grupos e ia às casas levar alegria. Hoje, aos 74 anos, ele não perde a memória e relembra que já viu muitos milagres, mas que nem todo mundo está preparado para receber, porque não acredita o suficiente.

Em 48 anos de estrada, grupo já viu até gente voltar a andar em "folia"
Há 48 anos os amigos fazem a folia de Santo Reis em Cassilândia e região (Foto: Arquivo pessoal)

“O milagre não é para todo mundo, é aquela pessoa que crê muito que vai receber. A folia, para nós, é uma coisa muito boa, porque a devoção, para quem crê, é um alívio. Temos muitos exemplos de milagres. Um ano chegamos em Alcinópolis, tinha uma menina doente. A mãe pediu para ir lá na casa dela cantar".

Ele lembra que a criança estava deitada porque não andava. O grupo chegou com a bandeira; começou a cantar e a menina pediu para sentá-la na cama. “Colocamos a bandeira no colo dela. Depois de três dias ela estava melhorando e começando a andar sozinha. A devoção era muita. Isso faz uns 13 anos.”

Ele liga para os amigos e eles saem em peregrinação.

Em 48 anos de estrada, grupo já viu até gente voltar a andar em "folia"
Jerônimo começou a cantar nas folias desde os 12 anos, tocando pandero depois violão (Foto: Arquivo pessoal)

“Significa algo muito bom, porque se todo mundo pensasse igual a gente a nossa tradição não acabaria. Por isso montamos o grupo para manter a tradição e não deixar isso fracassar. Se sai uma pessoa, a gente coloca outra no lugar”.

Jerônimo explica que sempre se sentiu bem fazendo isso e que, tocando e cantando, às vezes chega a chorar. Na infância, ele tocava pandeiro, depois começou a tocar violão e cantar, e nunca mais parou. Ele conta que, para cantar, é preciso estar com a mente tranquila e que faz isso no improviso.

“Eu sou o mestre da companhia. A gente tem que ter a ideia muito limpa pra poder cantar e falar os versos que vêm na hora. A esmola de uma criança é uma coisa, a de um adulto é outra. A gente tem que ter a cabeça boa pra cantar no improviso. Eu canto e toco. Todos tocamos. Só quem não toca são os dois palhaços”.

Em 48 anos de estrada, grupo já viu até gente voltar a andar em "folia"
Jerônimo e o amigo Elivom Santos se recusam a deixar tradição morrer (Foto: Arquivo pessoal)

A recepção das pessoas é uma alegria e a única recompensa do grupo. “Dá incentivo pra gente, que faz até chorar, essa é a verdade. Se chegar na casa de uma pessoa e ela der uma moeda de 10 centavos, a gente vai agradecer igual agradece R$ 50 ou R$ 10. Uma prenda que a gente ganha, uma poesia só, ela é agradecida igual. O dinheiro vai pra festa, ajudar os membros. Às vezes doamos para a igreja, doamos para a APAE”.

O grupo já foi contratado para fazer a festa em várias cidades do Estado e até fora dele. Entre os lugares estão São Paulo, Goiás e Mato Grosso.

O dom de ser palhaço

No meio dessa engrenagem de fé e música, surge a figura de Elivom Santos Tico. Há 40 anos, ele assume a função que muitos subestimam: a de palhaço da folia. Para ele, a máscara e as cores não são um disfarce, mas uma escolha divina. “Muitos falam que palhaço qualquer um faz, e não é verdade. Fomos escolhidos por Deus”.

Carpinteiro de profissão, Elivom também deixa o trabalho no sítio e paga um substituto para poder cumprir sua missão. Ele é a prova da renovação da companhia, que já viu membros morrerem e outros partirem.

“Meu sobrinho também era palhaço e morreu. Tô treinando o filho dele, de 15 anos. O que mantém a gente há tanto tempo é a fé, porque a gente faz isso por gostar. A gente passa fome, passa frio, passa da hora de comer. Moro no sítio perto de Cassilândia. Esse é um hobby nosso. A companhia só se encontra na época de festa”.