Irmãs fizeram do quintal um set de filmagem e levaram história à Europa
Gabriela e Valentina resgatam memórias em curta selecionado na mostra de Madri

Enquanto Gabriela Dias atravessava um mar de dificuldades e problemas de saúde, fotos antigas de infância despertaram nela a vontade de resgatar o passado e deixar uma marca na história, mesmo que fosse na dela. Do ato simples nasceu a ideia de um filme ensaio produzido de forma independente, no quintal de casa. A estrela do projeto “Não Lugar-Carta Fílmica” é a irmã Valentina, de 10 anos. O projeto foi parar até na Europa.
RESUMO
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Gabriela Dias transformou suas dificuldades pessoais em um projeto cinematográfico independente, produzindo o filme ensaio "Não Lugar-Carta Fílmica", estrelado por sua irmã Valentina, de 10 anos. A obra, que nasceu de um processo de autoconhecimento e resgate de memórias familiares, foi selecionada para a Mostra Internacional de Madri. O projeto evoluiu para um documentário, também protagonizado por Valentina, que aborda temas como solidão e pertencimento através das histórias de quatro mulheres negras. A produção, finalizada em janeiro de 2024, representa uma importante conquista na preservação da memória e na visibilidade de narrativas negras, tradicionalmente apagadas da história.
A ideia era uma volta no tempo para encarar, mais uma vez, os desafios de uma mulher negra com problemas profundos: depressão e um diagnóstico de fibromialgia. Não só isso, mas celebrar o direito de poder deixar a trajetória até os 30 anos gravada. Tudo começou em 2022 e, na época, Gabi achou que o filme seria sobre o fim, mas foi justamente ao contrário, foi sobre o começo e autoconhecimento.
A roteirista conta que muitas mulheres negras não tiveram o direito e acesso para registrar suas próprias vidas e vivências. Exemplo disso foi a pesquisa que ela fez sobre a tataravó e a frustração que teve depois que não achou nada.
“Eu só consegui chegar até a minha bisavó, então existe uma ruptura nesse lugar da memória, como eu vou imaginar a minha avó? Vai ser pela oralidade da minha mãe, e como eu vou fazer com que as memórias da minha família não sejam apagadas? E foi dessa forma que eu encontrei o audiovisual e esse manifesto sobre a memória".
A ideia de participar do curta, que depois virou documentário, foi da própria Valentina, que não esperou a resposta da irmã para dizer que seria a estrela do filme de Gabi.
“Ela falou assim: eu posso ser artista do seu filme e aquilo me atravessou em um lugar muito sensível de que um dia eu também era uma criança de 10 anos, que sonhava e que tinha aspirações e, nesse processo de visitar as memórias, eu vou contando a minha história, minha perspectiva de uma mulher negra adulta enfrentando diversas violências simbólicas sociais estruturais. Ela encena minha criança. Eu descobri uma nova forma de ver o mundo”.

O filme ensaio foi feito até 2024, sem recursos, muito menos luxo. Gabi chegou a ir para Goiânia fazer uma consultoria de roteiro. Precisou da ajuda de amigos e familiares e lá nasceu o segundo filme, um documentário que atravessa a história de mais três mulheres. Elas falam sobre solidão, pertencimento e a relação com as memórias. No novo filme, Valentina também atua, “encenando um futuro possível. E isso foi muito transformador”, destaca Gabi.
O documentário que leva o mesmo nome do filme ensaio acabou de ser gravado dia 13 de janeiro. O que as irmãs não esperavam era que o primeiro roteiro fosse parar na Europa, na Mostra Internacional de Madri.
“Pra mim, essa seleção é mais do que o reconhecimento de um filme, é a confirmação de que a minha história e as histórias que carrego comigo têm valor, escuta e lugar. Vindo de um território onde tantas vezes o acesso é negado, ser selecionada significa romper silêncios, atravessar ausências e afirmar que corpos, memórias e narrativas negras não apenas existem, mas importam e merecem circular. Hoje eu olho para 2022 e percebo o quanto esse filme e essa construção me curaram da minha solidão. O que mais me salvou nesse processo foi ter outras mulheres que me acolheram e me deram afeto. É um filme sobre reconstrução das memórias”.
Falando sobre felicidades, a amiga e escritora Sara Murecy teve papel primordial no projeto. Segundo Gabi, foi por causa dela que o filme não ficou na gaveta. “Ela colocou o filme na TV da casa dela e a gente chorou juntas. A gente é acostumada a ser forte o tempo inteiro. Entã ali a gente pode validar o nosso sofrimento. Porque muitas coisas realmente machucam, ela falou: não desiste desse filme não, eu te ajudo, a gente constrói um novo roteiro”.
O lançamento está previsto para março. Sobre a participação da irmã, Gabriela ressalta que ela foi luz durante o processo.
“Ela se parecia muito comigo quando era criança. A Valentina é isso, ela é essa ressonância da vida. E é muito bom ter ela, me dá esperança e me faz continuar acreditando, porque era um filme que era pra ser o meu último filme, que deu lugar a um filme que demonstra que, às vezes, a gente não tem lugar e, para ter lugar, a gente precisa construir o nosso próprio. Não é uma travessia fácil, mas é muito cheia de dignidade também”.




