Regina preserva sabores de Okinawa com receitas ancestrais e memórias
Para ela, cozinhar é ritual, lembrança e uma forma de manter viva a história da família
Aos 67 anos, Regina Maria Takayassu transformou a comida em ponte entre passado e presente. Muito além de alimentar, ela cozinha para manter viva a memória da família, a cultura dos ancestrais de Okinawa e as histórias que atravessaram oceanos até chegar a Mato Grosso do Sul.Foi assim que nasceu o Terraço da Mata – Culinária Afetiva de Okinawa, projeto que leva às feiras criativas de Campo Grande uma comida cheia de significado.
RESUMO
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Regina Maria Takayassu, de 67 anos, mantém viva a cultura de Okinawa através do projeto Terraço da Mata, em Campo Grande (MS). Com receitas tradicionais aprendidas com a mãe e a avó imigrante, ela oferece pratos autênticos em feiras criativas da cidade, preservando a essência da culinária okinawana. Entre as especialidades estão sushis tradicionais com legumes, o bolo de melado com gengibre e pratos típicos como kamaboko e umbussá. Regina também criou versões contemporâneas, como onigiri e pastéis assados, mantendo a identidade oriental e usando ingredientes locais e saudáveis.
As receitas que Regina prepara não vieram necessariamente dos livros, mas da casa onde cresceu, das panelas da mãe e das mãos da avó, imigrante okinawana. São pratos aprendidos no dia a dia, observando, sentindo cheiros, respeitando o tempo de cada preparo. “É uma culinária de raiz, de ancestralidade. É comida de avó, caseira, que quase não se encontra em restaurantes”, explica.
Ela faz questão de diferenciar essa cozinha da culinária japonesa mais popularizada e abrasileirada. Enquanto muitos restaurantes apostam em sushi com cream cheese e releituras modernas, por exemplo, Regina mantém a essência do que aprendeu em casa. “O nosso tempero é outro. É simples, integral, respeita a origem”, diz.
Em casa, Regina prepara cozidos, carnes de porco, pratos com legumes e receitas que costumavam aparecer apenas em festas grandes da colônia, como a conhecida sopa de cabrito, tradicionalmente servida em celebrações.
Nas feiras em que participa, o que mais chama atenção são os sushis tradicionais e fiéis à origem, recheados com legumes como cenoura, pepino cozido, vagem e alga, sem ingredientes industrializados. “O pessoal gosta muito porque é simples e verdadeiro”, detalha.
Ao lado das receitas herdadas, Regina também criou pratos contemporâneos, pensados para a vida corrida de hoje, mas sem abrir mão da saúde e da identidade oriental. Um exemplo é o onigiri, um sanduíche de arroz recheado e feito também na versão com pão integral, quando a pressa não permite cozinhar o arroz.

Ela desenvolveu ainda um pastel assado de massa folhada, recheado com legumes e shimeji, sempre priorizando ingredientes locais, ovos caipiras, sem lactose e com opções sem glúten.
Outro destaque são os doces, especialmente o bolo de melado de cana com gengibre, receita típica okinawana e que é uma das mais pedidas nas feiras. Feito sem açúcar refinado, leva rapadura dissolvida, farinha tradicional ou versões sem glúten. “Tem gente que chega na feira perguntando se tem o bolinho e quando não tem, sente falta”, conta.
Para Regina, cozinhar é ritual. Algumas receitas exigem tempo, paciência e respeito, como o kamaboko, uma iguaria rara feita a partir de peixe, preparada em um processo demorado que remete diretamente à infância.
“Quando faço, sinto como se estivesse evocando a presença da minha avó e da minha mãe. O cheiro traz elas de volta”, relata. O mesmo acontece com o umbussá, um cozido cheio de legumes, carnes, tofu e alga amarrada em nó, prato típico das festas da colônia.
Essas receitas carregam também a história dura da família. Os avós de Regina vieram de Okinawa fugindo da fome e da miséria no início do século 20. Passaram por fazendas de café no interior de São Paulo, sofreram maus-tratos e fugiram escondidos em um trem da Noroeste do Brasil até chegar a Mato Grosso do Sul, onde se estabeleceram em Aquidauana e depois em Campo Grande.
Aqui, a família enfrentou preconceito durante a Segunda Guerra Mundial, mas seguiu trabalhando, criando raízes e transmitindo valores por meio da comida.
Na casa de Regina, cozinhar sempre foi sinônimo de cuidado. A mãe, Sueli, ensinou os filhos a preparar refeições quando precisou assumir o comércio da família após o pai sofrer um acidente. Mesmo com a mesa cada vez mais brasileira, com arroz, feijão, mandioca e carne, o tempero oriental nunca desapareceu.
Esse aprendizado silencioso também virou educação. Regina conta que cresceu vendo que a mãe nunca chegava de mãos vazias na casa de alguém. Levava um bolo, um salgado, algo feito em casa. Sem perceber, ela repetiu o mesmo gesto a vida inteira, e passou para a filha Thaís. “Ninguém ensinou com palavras. A gente aprende olhando”, resume.
Para ela, a comida vai além do físico. “A comida cura. Cura tristeza, mau humor, cansaço. E para cozinhar bem, não dá para entrar na cozinha com raiva. Tem que colocar o coração. Na culinária japonesa, primeiro se come com os olhos, depois com o cheiro, até chegar ao sabor. Cada prato é pensado como uma pequena obra de arte”, afirma..
E é esse cuidado que ela leva às feiras criativas de Campo Grande e às encomendas feitas sob medida, entregas que ajudam a manter viva a culinária de Okinawa na cidade. “É uma alegria ver alguém provar e gostar de algo feito por mim. E faço hoje para lembrar o ontem e não deixar essa cultura desaparecer”, finaliza.
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