Nem os novos bares da 14 de Julho desanimaram o boteco raiz da Nice
Voltamos ao bar que segue firme com doses de raizada de pinga e ovo cozido de petisco
Nem o tempo, nem a chegada de novos bares badalados na Rua 14 de Julho, nem a estrutura moderna de outros espaços conseguiram fechar as portas do bar da dona Nice, na Rua Antônio Maria Coelho, quase na esquina com a 14. Aberto no lugar onde já funcionou uma antiga pensão, o estabelecimento completa 57 anos em 2026 e segue firme e em pleno funcionamento na região central de Campo Grande.
RESUMO
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O tradicional bar da dona Nice, localizado na Rua Antônio Maria Coelho em Campo Grande, completa 57 anos em 2026, mantendo-se como um símbolo de resistência no centro da cidade. Dionísia Gimenez, a dona Nice, hoje com 83 anos, continua à frente do estabelecimento que abre às 5h da manhã. O local preserva suas características originais, incluindo a máquina registradora de 1969, e é famoso por suas pingas curtidas em raízes e pela sopa paraguaia. Mesmo com a modernização da região e novos estabelecimentos, o bar mantém sua clientela fiel e, segundo a proprietária, o movimento só melhorou com o tempo.
O lugar resiste com o mesmo com cara de antigo. Ali ainda se vendem as clássicas pingas curtidas em raízes, a tradicional sopa paraguaia da proprietária, ovo cozido de quitute e até a máquina registradora comprada em 1969, que segue no caixa.
Em outubro de 2014, o Lado B contou a história de Dionísia Gimenez, a dona Nice, que na época tinha 72 anos. Doze anos depois, a equipe voltou ao local e encontrou o espaço praticamente intacto, exceto pelos sinais do tempo. A mesma fachada simples, o mesmo balcão e a mesma dona Nice, hoje com 83 anos, cuidando do lugar onde criou os filhos, enfrentou dificuldades e construiu uma relação de amizade com gerações de clientes.
“Eu já nem me lembro mais há quantos anos estou aqui”, responde ao ser questionada sobre o tempo de trabalho. Para a comerciante, uma das poucas certezas é que ela não pensa em deixar a rotina no bar, mesmo com tanta mudança ao redor. Eu me sinto útil ainda. Tenho tudo na mão aqui. Todo mundo me conhece. Vou sair daqui pra quê?”, questiona.
Segundo Nice, os filhos até tentam convencê-la a descansar, mas ela não quer saber. “Eles querem me levar para descansar, mas eu não quero. Eu tô bem aqui. Faço alguma coisinha, atendo cliente, brigo com o bêbado, brigo com velho, brigo com a criança. Eu tô aqui, entendeu?”, brinca.
A rotina começa cedo e às 5h da manhã as portas já estão abertas. “Eu moro aqui mesmo, no fundo. Cinco horas da manhã já está funcionando”, detalha. Hoje, por conta da idade e por recomendações da família, ela já não faz tudo como antes, mas continua presente ao longo do dia. “Tenho quem me ajuda aqui, mas quando o pessoal vai tomar um café ou vai almoçar meio-dia, eu fico por aqui”, pontua.
O bar costuma fechar tarde, muitas vezes entra madrugada adentro. Quem ajuda são os filhos, que se revezam entre outros trabalhos e o negócio da família. À noite, dona Nice já não trabalha mais, mas acompanha tudo de perto.
No balcão, o que mais sai continua sendo a bebida. “Aqui é de tudo. O pessoal toma raizada, pinga, whisky, cerveja”, destaca. Segundo ela, as raizadas são um dos grandes segredos do sucesso. Entre as pingas curtidas, as mais pedidas são a cancorosa, maleitosa e a carqueja. “A dose depende, tem de três, cinco, oito reais. Algumas vão até 20. É mais barato e o pessoal gosta bastante”, explica.
O espaço, que já foi hotel e hoje abriga quartos alugados, também faz parte da história de resistência do lugar. “Todos os meus filhos foram criados aqui e com o dinheiro daqui”, afirma.
Mesmo com tantas mudanças no Centro e com a abertura de bares modernos na 14 de Julho, ela garante que o movimento só melhorou. “Mudou para melhor. Agora passam por aqui clientes antigos, que vinham quando eram crianças, e novos clientes que chegaram por causa do movimento que aumentou”, finaliza.
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