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Projeto Carnaval: quando a pressa vira risco para a saúde

Excesso de treino e “canetas emagrecedoras” colocam foliões em risco

Por José Cândido | 10/02/2026 15:59
Projeto Carnaval: quando a pressa vira risco para a saúde
Os exercícios devem ser orientados por profissionais para evitar lesões, exaustão extrema, mal-estar, taquicardia e efeitos adversos graves. (Foto Jonathan Borba)

Com o Carnaval batendo à porta, o espelho vira juiz severo e o relógio passa a correr contra o corpo. De repente, o tal “projeto Carnaval” surge nas conversas, invade as redes sociais e lota as academias, quase sempre acompanhado de promessas milagrosas e prazos irreais. O problema é que, na ânsia de mudar tudo em poucas semanas, muita gente acaba escolhendo atalhos que cobram um preço alto da saúde.

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O período que antecede o Carnaval tem gerado preocupação entre profissionais de saúde devido à busca por resultados estéticos rápidos. Especialistas alertam sobre os riscos de treinos excessivos sem orientação adequada e do uso indiscriminado de medicamentos emagrecedores, que podem resultar em lesões graves, problemas cardíacos e complicações metabólicas. Profissionais da área recomendam cautela e planejamento para alcançar resultados seguros. A docente Inez Oliveira destaca a importância da periodização dos treinos, enquanto a professora Patrícia Pacheco alerta sobre os perigos do uso não supervisionado de medicamentos para emagrecimento, especialmente durante as festividades carnavalescas.

Treinos em excesso, descanso insuficiente e até o uso de medicamentos sem prescrição entram no pacote do “shape de última hora”. Na prática, esse impulso pode resultar em lesões, exaustão extrema, mal-estar, taquicardia e efeitos adversos graves — principalmente quando não há orientação profissional nem avaliação prévia.

A docente de Educação Física da Estácio, Inez Oliveira, faz o alerta direto: resultado imediato raramente combina com segurança. “Todo protocolo de treinamento ou intervenção precisa ser orientado por profissionais capacitados”, afirma. Segundo ela, um dos erros mais comuns no pré-Carnaval é aumentar carga e intensidade de forma brusca, especialmente para quem está retomando a rotina ou nunca treinou de verdade. Em um corpo “destreinado”, o excesso costuma terminar em lesão.

“Até o controle de intensidade, carga e volume precisa ser periodizado. Quando o indivíduo força demais sem um protocolo individual, a lesão vem”, reforça. E o efeito costuma ser o oposto do desejado: semanas — às vezes meses — parado, longe da academia e da folia.

Outro ponto crítico é o uso indiscriminado de estimulantes e pré-treinos, muitas vezes combinados com cardio intenso e pouca recuperação. “A pessoa nem sabe se tem alguma arritmia cardíaca ou problema no coração. Isso pode gerar gatilhos perigosos e até provocar um infarto ou AVC”, alerta Inez.

Canetas emagrecedoras: risco embalado em urgência

Além do excesso de treino, cresce a procura por emagrecimento rápido com as chamadas “canetas emagrecedoras”, popularizadas como solução expressa para o projeto Carnaval. Para a professora Patrícia Pacheco, docente de Biomedicina da Estácio e mestre em fisiopatologia endócrina, a urgência estética tem atropelado a fisiologia.

“Com a proximidade do Carnaval, a urgência estética muitas vezes atropela a fisiologia, e é aí que moram os riscos”, diz. Segundo ela, o erro está em tratar como acessório estético algo que é, na essência, um tratamento de saúde. “Essas medicações são ferramentas fantásticas para obesidade e doenças metabólicas, mas precisam ser encaradas como tratamento de longo prazo, não como solução temporária.”

O uso sem acompanhamento pode causar complicações sérias, como pancreatite aguda, gastroparesia, hipotensão associada à desidratação e até sarcopenia acelerada — quando o corpo perde massa muscular e força. “Sem o cálculo correto de proteínas, o organismo passa a ‘devorar’ os próprios músculos para obter energia, destruindo o metabolismo a longo prazo”, explica.

Entre os sinais de alerta estão dor abdominal intensa, vômitos persistentes, constipação severa, tonturas, taquicardia e confusão mental. No Carnaval, o perigo aumenta. “A adrenalina da festa mascara os sintomas. O álcool ‘anestesia’ a dor abdominal inicial, e a pessoa só percebe a gravidade quando o quadro já está crítico”, afirma Patrícia.

O que dá, de fato, para fazer

Não existe milagre. Resultados consistentes exigem tempo, planejamento e orientação. “Todo resultado real é construído em meses, com treino individualizado”, resume Inez. Avaliação física, análise postural e metas realistas são o caminho para quem busca não só estética, mas longevidade no exercício.

Patrícia acrescenta que, em poucas semanas, até é possível melhorar disposição e reduzir inchaço — desde que o foco esteja em hábitos seguros: menos ultraprocessados, menos sódio, mais fibras e hidratação adequada. “A recomendação é beber pelo menos 35 ml de água por quilo de peso corporal”, orienta.

No fim das contas, o melhor “projeto Carnaval” é aquele que não transforma o corpo em campo de batalha. É o que permite atravessar a avenida — ou o bloco — com energia, segurança e bem-estar. Porque depois da quarta-feira de cinzas, o corpo continua ali. E a conta sempre chega.

Projeto Carnaval: quando a pressa vira risco para a saúde
“Todo resultado real é construído em meses, com treino individualizado”, resume Inez. (Foto Pavel Danilyuk)