Simone sai magoada com MDB e encerra ciclo dos Tebet na política de MS
Disputa pelo Senado em SP consolida processo iniciado em 2022 e reposiciona ministra no cenário nacional
Não houve choro, velório nem celebração. A despedida — agora oficial — de Simone Tebet de Mato Grosso do Sul e do MDB para disputar o Senado por São Paulo pelo PSB foi a crônica de uma ruptura anunciada: sem surpresa, mas carregada da mágoa e dos ressentimentos próprios da política.
RESUMO
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Só o destino eleitoral da ministra, se vitoriosa, poderá reverter o encerramento, nesta terça-feira (31 de março), de um ciclo de meio século de influência da família Tebet na política regional.
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A decisão desta terça-feira é a mais contundente de sua trajetória. Prefeita de Três Lagoas, deputada estadual, vice-governadora e senadora por Mato Grosso do Sul, Tebet agora muda de eixo.
Ao deixar o Ministério do Planejamento não apenas troca de Estado e de projeto eleitoral — promove uma inflexão profunda em sua identidade política e no campo de atuação que construiu ao longo de mais de três décadas.
Foi com peso no coração, mas com cálculo político na cabeça: caso se eleja por São Paulo e o presidente Lula conquiste um quarto mandado, estará entre os presidenciáveis de 2030. Uma derrota seria o caminho de longo ostracismo.
Ruptura e mudança de eixo
O movimento redesenha sua trajetória em várias frentes. Tebet rompe com o MDB de Mato Grosso do Sul, encerrando um ciclo de mais de cinco décadas de vínculo familiar com a legenda. Ao mesmo tempo, se afasta do campo político local, inclusive da linha adotada pelo marido, o ex-deputado Eduardo Rocha, hoje alinhado ao governo estadual e a forças que migraram para a direita bolsonarista.
A mudança também carrega um componente ideológico. Embora rejeite uma guinada formal, Tebet reconhece o reposicionamento ao aceitar integrar um campo político mais próximo do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
“A gente não muda aquilo que a gente é. Me chamaram justamente por eu ser de centro”, afirmou ao Campo Grande News.
O rompimento com o MDB não ocorreu sem desgaste. Foi resultado da fadiga de uma relação que se deteriorou ao longo dos anos — desde quando resistiu a disputar o governo em 2014, a pedido do ex-governador André Puccinelli, à época preso, até o isolamento mais recente no diretório regional.
“Eu precisava virar a página do MDB. O MDB, pelo qual eu chorei, pelo qual eu sangrei, não existe mais”, disse.
Ao mesmo tempo, Tebet faz questão de preservar a relação com a cúpula nacional do partido, numa tentativa de evitar uma ruptura completa. Nos bastidores, a avaliação é de que sua permanência já havia se tornado insustentável — um processo que se consolidou nos últimos meses, impulsionado também pelo convite do vice-presidente Geraldo Alckmin para ingressar no PSB.
Do afastamento local ao processo de 2022
No plano eleitoral, a consequência mais imediata é o afastamento prático de Mato Grosso do Sul. Tebet admite que sua participação na campanha local será improvável, ainda que não descarte presenças pontuais.
“Se me chamarem, eu vou. Mas meu foco hoje é São Paulo. Não tem nem como eu sair de lá”, afirmou.
A ministra cita o peso do eleitorado paulista — o maior do país — como fator determinante para a concentração de esforços. A mudança, no entanto, não surge como ruptura súbita.
A leitura de que o movimento é o desfecho de um processo iniciado em 2022 é compartilhada pelo cientista político Daniel Miranda, da UFMS. Segundo ele, a trajetória recente de Tebet é marcada por sucessivas inflexões.
“2022 já representou um ponto de ruptura na trajetória dela. Ao entrar no governo Lula, houve uma inflexão — não é uma política de esquerda, mas foi um deslocamento claro”, afirma.
“A candidatura à Presidência também foi outra ruptura, inclusive com o próprio partido. Ela foi com a cara e a coragem, sem apoio do MDB.” Nesse contexto, a mudança para São Paulo aparece como etapa final desse ciclo. “É o fechamento desse processo de reinvenção política”, resume.
Impacto limitado em MS, peso maior em SP
A consequência direta, segundo Miranda, é que Mato Grosso do Sul já havia deixado de ser o centro da atuação política de Tebet antes mesmo da decisão atual.
“Ela já tinha interrompido a carreira política no Estado ao se lançar nacionalmente. Aqui, não vejo grande impacto, porque ninguém contava mais com a presença dela.”
“Isso é só o coroamento de um afastamento que já tinha acontecido.”
Se no Estado de origem o efeito tende a ser limitado, o impacto pode ser mais interno ao MDB, que se livra de um conflito prolongado. Fora desse aspecto, a reorganização do cenário local deve ocorrer sem grandes abalos.
A mudança de Simone evita um conflito maior: o MDB local lhe negaria a legenda para disputar o Senado, movimento que ela classifica de apequenamento do partido pelos caciques: "Não tiveram a coragem de me expulsar".
No plano nacional, porém, o movimento ganha outra dimensão. A aposta em São Paulo é, sobretudo, estratégica.
“Ela tem muito mais impacto na eleição nacional e em São Paulo do que no Mato Grosso do Sul. Meio por cento em São Paulo vale muito mais do que meio por cento aqui”, afirma.
A tendência, nesse cenário, é de concentração quase total de sua atuação no novo reduto eleitoral.
“Ela deve encorpar o palanque do Lula e dificilmente vai circular com frequência em Mato Grosso do Sul.”
Segundo o cientista político, fatores práticos e políticos reforçam esse afastamento. O tempo de campanha é curto, o território paulista é vasto e uma presença mais ativa no Estado de origem poderia gerar constrangimentos, sobretudo diante das alianças locais.
“Se vier, deve ser algo pontual, talvez em um evento com o Lula, mas não uma atuação contínua.”
Estratégia, necessidade e nova etapa
Para Miranda, a decisão de Tebet também reflete um cálculo de viabilidade política.
“Desde 2022, ela não tem muitas opções políticas. É um misto de cálculo eleitoral com falta de alternativas.”
“Dentro das opções que ela tem hoje, é o melhor movimento possível.”
A avaliação converge com a estratégia mais ampla do governo federal, que concentra esforços no principal colégio eleitoral do país.
“O Lula colocou seus ‘generais’ em São Paulo — Haddad, Alckmin e Simone. São Paulo é decisivo. É onde a eleição pode ser ganha ou perdida.”
Se no plano analítico o movimento se encaixa como parte de uma estratégia nacional, no plano pessoal ele também vinha sendo construído. A própria ministra admite que a decisão foi amadurecida ao longo dos últimos meses.
“Já fazia cerca de seis meses que eu sabia que não tinha como dizer não”, afirmou, ao mencionar o convite de Alckmin para o PSB, seguido do incentivo de Lula para a mudança de domicílio.
O vínculo familiar — com filhas vivendo em São Paulo — e a estrutura já estabelecida no Estado facilitaram a transição.
O discurso de despedida do Ministério do Planejamento reforça esse caráter planejado. Em tom institucional e emocional, Tebet apresentou sua passagem pela pasta como parte de um projeto mais amplo de reconstrução do Estado brasileiro. Defendeu “um Brasil democrático, justo e inclusivo” e destacou a retomada do planejamento como eixo da ação governamental.
Mais do que um balanço administrativo, a fala funcionou como fechamento de ciclo — e, ao mesmo tempo, como abertura de uma nova etapa.
Entre o rompimento com o passado e a aposta no maior colégio eleitoral do país, Simone Tebet, bem avaliada em pesquisas eleitorais, inicia agora uma travessia que, mais do que uma mudança de domicílio eleitoral, redefine seu papel no cenário político nacional — não como ponto de partida, mas como consequência de um deslocamento iniciado anos atrás.


