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Para os filhos: raízes e asas

Por Cristiane Lang (*) | 12/01/2026 13:30

Criar um filho é, desde o início, um exercício de paradoxos. Queremos proteger, mas sabemos que não podemos blindar. Desejamos proximidade, mas trabalhamos todos os dias para que, um dia, a autonomia seja possível. Entre colo e limites, conselhos e silêncios, os pais constroem algo invisível, porém essencial: raízes fortes e asas prontas para o voo.

Quando os filhos saem de casa, não é apenas uma mudança de endereço. É uma travessia emocional para todos os envolvidos. Para quem vai, há expectativa, medo, euforia e uma vontade legítima de descobrir o mundo com as próprias mãos. Para quem fica, instala-se um misto de orgulho e vazio. O quarto permanece, a casa silencia, e os rituais cotidianos se transformam em lembranças.

Os pais costumam alimentar anseios que raramente são ditos em voz alta. Esperam que os filhos sejam felizes, mas também que sejam prudentes. Que se arrisquem, mas não demais. Que cresçam, mas não se distanciem tanto. Há o desejo secreto de continuar sendo referência, porto seguro, lugar de retorno. Ao mesmo tempo, existe o medo de se tornarem dispensáveis, de que o amor mude de forma e já não caiba na rotina de antes.

É nesse momento que a educação se revela em sua essência. Pais não criam filhos para si, mas para o mundo. As raízes servem para sustentar valores, identidade, pertencimento. São elas que lembram de onde se veio, mesmo quando a vida leva para longe. As asas, por sua vez, não pedem permissão para bater. Elas existem para que os filhos façam escolhas próprias, inclusive aquelas que os pais não fariam.

Assistir a esse voo exige maturidade emocional. É preciso confiar no que foi construído ao longo dos anos: nas conversas, nos exemplos, nas correções feitas com respeito. Também exige aceitar que os filhos errarão, aprenderão e crescerão fora do alcance direto dos pais. Amar, nessa fase, é resistir à tentação do controle e substituir a vigilância pela presença disponível.

Para muitos pais, a saída dos filhos também escancara um reencontro consigo mesmos. Quem somos agora, além de pai e mãe? Que espaços ficaram vazios e quais podem ser preenchidos de novas formas? Esse luto silencioso não diminui o amor; ele o transforma. Assim como os filhos iniciam uma nova etapa, os pais também são convidados a ressignificar seus papéis.

No fim, criar filhos é aceitar que o amor verdadeiro não aprisiona. Ele prepara, fortalece e solta. E mesmo quando as asas se abrem e o voo acontece, as raízes permanecem. Invisíveis, profundas, firmes. É nelas que os filhos se apoiam quando o mundo pesa. E é nelas que os pais encontram a certeza de que, apesar da distância, o vínculo permanece inteiro.

(*) Cristiane Lang, psicóloga clínica, especialista em Oncologia pelo Albert Eisntein.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.