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Quando a sociedade muda e quando apenas se agita

Por Marcos Buckeridge (*) | 10/03/2026 13:00

No início desta série, sugeri que a sociedade pode ser compreendida como um sistema de vetores em interação contínua. Cada grupo social, cada instituição, cada setor econômico atua segundo suas próprias diretrizes, orientados por interesses, valores e circunstâncias históricas. Em condições ordinárias, esses vetores produzem tensão, disputa e movimento, mas não necessariamente alteram a direção predominante do sistema. Há dinâmica, mas também inércia.


Se aceitarmos essa hipótese, a questão central deixa de ser apenas saber se há mobilização ou indignação suficientes. A pergunta mais profunda é outra: há convergência suficiente para deslocar a resultante do conjunto?

A história recente do Brasil apresenta dois momentos que iluminam essa distinção. Ambos envolveram mobilização massiva. Ambos produziram imagens de ruas tomadas. Ambos pareciam anunciar inflexões históricas. No entanto, seus efeitos estruturais foram distintos. Refiro-me ao movimento das Diretas Já, em 1984, e às manifestações de junho de 2013.

No início dos anos 1980, o regime militar atravessava uma fase de desgaste. A economia enfrentava inflação elevada, endividamento externo e perda de dinamismo. Movimentos sindicais haviam se fortalecido, a sociedade civil se reorganizava e a abertura política, ainda que controlada, ampliava o espaço público. Havia tensão acumulada. Mas tensão, por si só, não é mudança.

O que se alterou em 1984 não foi apenas a intensidade da mobilização, mas também sua configuração. A pauta das eleições diretas deixou de ser uma reivindicação restrita a determinados partidos ou segmentos organizados e passou a permear diferentes subsistemas sociais. Sindicatos, artistas, intelectuais, governadores, parte da Igreja, meios de comunicação e setores empresariais passam a compartilhar uma narrativa mínima comum: a necessidade de restaurar as eleições diretas para presidente.

Não havia homogeneidade ideológica. Cada grupo mantinha suas próprias agendas. No entanto, naquele momento específico, vetores antes dispersos passaram a apontar para uma direção suficientemente semelhante para gerar uma nova resultante. A convergência não foi total, mas sim transversal.

A emenda de Dante de Oliveira, proposta em 1983 e que visava restabelecer eleições diretas para presidente da República no Brasil durante o regime militar, não foi aprovada pelo Congresso Nacional em 1984.

Se considerarmos apenas o desfecho formal imediato, poderíamos falar em um fracasso. No entanto, a direção do sistema já havia se deslocado. A eleição indireta de Tancredo Neves e, posteriormente, a Constituição de 1988 foram desdobramentos de uma convergência que tornara a continuidade do regime progressivamente insustentável.

O regime não caiu por um único ato. Ele perdeu sustentação distribuída. Setores que antes operavam como vetores neutros ou de apoio recalibraram suas posições. A manutenção do status quo tornou-se mais custosa do que a transição. Esse é o ponto em que o sistema atravessa seu limiar e passa a uma fase diferente.

Junho de 2013 apresenta um contraste instrutivo. As manifestações começaram com uma reivindicação relativamente específica contra o aumento das tarifas de transporte e rapidamente se expandiram para múltiplas pautas: combate à corrupção, crítica aos gastos públicos, insatisfação com os serviços e questionamento da representação política. Milhões foram às ruas e o nível de energia era altíssimo.

Durante algumas semanas, a sensação predominante era a de que o País estava à beira de uma profunda transformação estrutural. No entanto, a configuração dos vetores era distinta da observada em 1984. Não havia alinhamento devido à alta diversidade de pautas. A heterogeneidade era mais ampla e menos articulada. Havia movimentos organizados, mas também um grande contingente de participantes sem vinculação institucional.

Havia grupos progressistas e conservadores, pautas específicas e indignações difusas. Cartazes expressavam demandas muitas vezes contraditórias. A ausência de liderança formal foi celebrada como virtude. A recusa da mediação institucional acabou por se tornar a marca do movimento. Essa recusa, que apresenta um grande desalinhamento dos vetores, teve implicações estruturais. Sem mecanismos de articulação entre vetores distintos, tornou-se difícil alcançar uma convergência mínima. A energia social acabou se dissipando em várias direções simultaneamente.

A conclusão aqui é que intensidade não pode ser tomada como sinônimo de direção. Há, portanto, um padrão de alinhamento de vetores que permite atingir o limiar de mudança de fase. Tal limiar foi atingido nos eventos do final dos anos de 1980, mas não em 2013.

O resultado foi que o sistema político acabou respondendo apenas com ajustes pontuais. Nos anos seguintes, houve uma profunda reconfiguração do cenário político, com polarização crescente e alternância de projetos. Mas não se consolidou uma direção transversal amplamente compartilhada capaz de reorganizar de forma estável os subsistemas econômicos e institucionais.

Junho de 2013 foi um momento de grande perturbação. Alterou percepções, abriu espaço para novos atores e acelerou dinâmicas já latentes. Contudo, a resultante permaneceu em disputa.

A comparação entre 1984 e 2013 ajuda a esclarecer algo essencial. Mudanças estruturais exigem mais do que uma mobilização massiva. Exigem sincronização entre subsistemas distintos. Exigem que os vetores econômicos, políticos, culturais e institucionais se reforcem mutuamente em uma direção definida.

Em 1984, trabalhadores buscavam estabilidade política, empresários desejavam previsibilidade econômica, intelectuais reivindicavam liberdade e políticos procuravam legitimidade. Motivações distintas convergiram para uma direção comum. Em 2013, múltiplas motivações coexistiram, mas não se condensaram em um eixo compartilhado suficientemente estável.

A diferença entre emergência e mera agitação reside na convergência de sub-redes vetoriais.

Uma sociedade pode experimentar uma intensa mobilização e, ainda assim, preservar sua direção predominante. Pode haver movimento, ruído e polarização sem que se atravesse o limiar de reorganização estrutural. A mudança ocorre quando a resultante se desloca: a direção coletiva deixa de ser a soma das tensões e passa a ser a convergência.

Talvez, portanto, a pergunta mais produtiva não seja se há indignação suficiente, mas se há articulação suficiente. Não há energia acumulada, mas se essa energia encontra uma direção comum.

Sociedades não mudam apenas porque muitos se movem. Mudam quando muitos passam a se mover na mesma direção. Além disso, a direção, em sistemas complexos, nunca é produto da intensidade isolada. É sempre o resultado de convergência.

(*) Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.