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Beba das Crônicas

A casa e a escuridão

Por Gicelma Chacarosqui (*) | 03/02/2026 14:38

A casa era cheia de sombras e ruídos... Era um cenário vivo e vibrante, um labirinto de corredores estreitos e quartos pequenos, com estroncas e móveis antigos e gastos que rangiam e gemiam a cada passo. O chão de madeira estonava, e as portas abriam e fechavam com um som que se esfrega.

Ainda hoje não esqueço do ar denso com o cheiro de madeira velha e mofo, e o som de insetos e pequenos animais ouvidos nas paredes e no teto. A luz sempre fraca, das lamparinas a querosene, e as sombras dançavam nas paredes, criando um ambiente misterioso e aconchegante.

A casa era um organismo vivo, com seus próprios ruídos e movimentos de ranger e gemer, como se estivesse se estendendo e se contraindo, e os móveis me davam a impressão que pareciam se mover sozinhos, como se estivessem vivos. Apesar dos barulhos, e da confusão mental que a casa me causava, era um lugar acolhedor, um refúgio para mim, um lugar onde me sentia segura, quando eu não me deixava me levar pelo som das estroncas e dos ruídos, ali eu me esquecia do mundo exterior.

A casa é um personagem em si mesma, um lugar reminiscente, lugar onde história e memória afetiva se encontram, e onde as pessoas desta história vivem e conectam o passado e o presente.

Pobre e simples, casa de serraria... um lar humilde, mas cheio de calor e acolhimento. Pequena, com paredes de madeira bruta e desgastadas, e um telhado de zinco que rangia dedilhado pelo vento! A porta de entrada, também simples, era fechada por duas tramelas, quando fechada só embaixo virava portinhola com janela, e tinha uma cortina de pano que servia como proteção para a janela. O chão era de madeira, vermelhão e terra batida, e as paredes adornadas com fotos de família e objetos decorativos feitos à mão.

Dentro da casa, o ambiente sempre aconchegante, a cozinha pequena com um fogão a lenha, que crepitava e lumiava o ambiente irradiando uma luz quente, era o centro da casa. O cheiro de comida caseira de minha mãe, enche o ar, até hoje, e o som de panelas, sempre ariadas e os talheres limpos e reluzentes, é música afetiva para meus ouvidos. O mobiliário muito rústico que se resumia em uma mesa de madeira e cadeiras que foram feitas na própria serraria e pintadas por nós de azul.

A casa era refúgio, lugar de compartilhar histórias, onde cresci livre pelos quintais de montanhas de pó de serra! A simplicidade da casa era adornada pela a exuberância de amor e calor humano. Foi lugar onde Maria foi ela mesma, aprendeu a ler, escrever, sem pretensões ou máscaras, o lar em que o coração de Maria aprendeu a ser livre e selvagem…

A luz acabava às dez horas... É um hábito que se tornou rotina. A usina que fornecia a energia elétrica para a região tinha um horário de funcionamento limitado, e às dez horas da noite, a luz era cortada. A escuridão era total, exceto pela luz das estrelas e da lua que entrava pelas janelas e frestas. A família se reunia ao redor da mesa, à luz de velas, ou de lamparina de querosene para conversar e se despedir do dia. Eram momentos de tranquilidade, para refletir sobre o dia que passou e se preparar para o próximo. A escuridão era um lembrete de que a vida era simples, e que as coisas mais importantes não dependiam da luz elétrica. A família se adaptava à escuridão, e encontrava maneiras de aproveitar o tempo.

A escuridão nunca foi um obstáculo para a felicidade e o amor que encontrávamos no interior da casa transbordava qualquer estorvo. Ao contrário, a escuridão era um momento para nos conectar como pessoas e com a natureza, e para encontrar a beleza na simplicidade da vida em família. A escuridão como um manto que cobria tudo, um véu que escondia o mundo era parte da casa! Desta forma a escuridão era uma amiga, uma companheira de todas as noites. Era um convite para se conectar com as estrelas, para sentir o vento no rosto e ouvir os sons da noite. Era momento para se refugiar no silêncio e buscar a paz.

A escuridão sempre foi um lembrete de que a vida era simples, e que as coisas mais importantes não dependiam da luz, pois foi a luz da lua que vivi momentos em que me conectei profundamente com as pessoas que mais amo e compartilhei histórias, e me senti viva e vibrante. A escuridão pode ser assustadora para alguns, mas para mim foi fortaleza e refúgio, um lugar seguro que me ensinou a leitura a luz de velas e me fez sonhar e viajar pelo mundo da literatura. Fez também eu inventar outros mundos e sonhar com mundos possíveis...

Sonhei, li, vivi, estudei, brinquei e estudei e li mais, e mais e cresci e deixei a casa, mas a casa nunca me deixou. Ela vive encarquilhada em mim, faz parte das minhas cicatrizes, como que para me lembrar que posso ser maior que as estroncas, que a penumbra e a escuridão. Talvez por isto eu tenha sempre me guiado pela luz, pela alegria e pelas partilhas de um sorriso amplo e generoso.

Gicelma Chacarosqui

Pós-doc, (em andamento pela Universidade de Salamanca /Esp); Pós-doc pelo ECCO, UFMT; Doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP; Mestrado em Estudos Literários e graduação em Letras Português Literatura Brasileira pela UFMS. É professora Titular da UFGD. Membro da Academia Douradense de Letras e da UBE-MS. Autora de diversos livros e periódicos !

 

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