ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JANEIRO, QUINTA  22    CAMPO GRANDE 26º

Beba das Crônicas

Conversa comigo mesmo

Por André Alvez (*) | 22/01/2026 18:28

Ultimamente, na hora de dormir, tenho conversando bastante comigo mesmo. A velha amiga insônia abraça minha cabeça e a voz sussurrante, firme e sincera, me faz companhia:

- Como foi que conseguimos dormir ontem?

- Estávamos conversando e, de repente, vimos uma campina, ao fundo uma enorme cachoeira.

- Ah sim...E tinha um cachorro latindo pensamentos.

- Verdade...Ele apontava com o focinho uma cadeira de balanço. E sentamos na cadeira para sentir a água passar bem perto, o barulhinho gostoso: rec, rec, rec...

- O certo era virar de lado e dormir.

- A gente nunca conseguiu isso. Desde sempre, primeiro um emaranhado de pensamentos é só bem depois o sono chegava.

- Mas não demorava tanto.

- Era rápido, mas éramos jovens.

- Como estamos?

- Já estivemos melhor

- Em que sentido?

- Saúde, principalmente.

- Envelhecemos...

- Sim, e isso incomoda.

- A opção é a morte.

- Só por isso me conformo.

- Alguma dor estranha?

- Pouca, quase nada.

- Nariz entupido?

- Às vezes, já teve pior

- Exames deram bom resultados, não foi?

- Tirando o diabetes e essa ameaça de ficar cego, o resto está muito bem.

- Então não reclame.

- Não estou reclamando. Sei lá, acho que é saudades...

- Isso é certo, os amigos, os jogos de futebol no campinho do Taveirópolis, os bailes aos sábados, a irmã do Berico.

- A irmã do Berico? Ela te ignorava!

- Eu sei, mas sempre fui de sonhar.

- Que fim terá levado?

- A irmã do Berico?

- Não só ela, a turma toda do campinho da rua da feira...

- Alguns já morreram

- O Ananias, o Tá Legal, o Cajé...Lembro bem dos rostos deles.

- Talvez outros daqueles tempos tenham morrido e a gente nem ficou sabendo.

- E aquele pessoal do Colégio Oswaldo Cruz?

- Sente saudades daquela turma? Você era pobre e destratado por eles.

- Pois há de acreditar que até daquilo sinto pontadas de saudades?

- De ser considerado uma espécie de lixo humano e muitas vezes invisível para eles?

- Ora... Não seja tão duro, fizemos amigos por lá e a Diva gostava de mim.

- Ela era namorada do Celso.

- Como disse antes, eu sonhava acordado.

- E o Departamento de obras?

- Bons tempos. Sinto saudades de alguns... Tempo bom, a gente tinha vinte e poucos anos, cigarro não fazia mal, açúcar abundante, carnes sem legumes, ah, era tudo muito bom...

- Sim, tudo, e nem vamos pensar em sexo...

- Foi lá que você aprendeu tudo o que sabe.

- Quase tudo. Era o melhor datilógrafo na máquina de escrever elétrica.

- Verdade, a gente quase quebrava a esfera de tanto digitar.

- Nos tempos de ourives também aprendi bastante.

- O Raul e o Gilberto não eram tão velhos, analisando agora.

- Nada, tinham cinquenta e poucos.

- Gilberto era um mestre, o melhor ourives que já existiu.

- Raul também era muito bom.

- Era sim.

- Sabe a coxinha de frango da Maria galinha? Às vezes sonho que estou por lá comendo e bebendo tubaína.

- Nem me fale. Nunca mais fizeram algo sequer parecido. O bolo de fubá cremoso da dona Maria, esposa do Botu, também não existe nada parecido hoje em dia. E você lembra que na loja Americanas tinha uma lanchonete?

- Nossa, muitas vezes sinto o cheiro e o gosto daquele cachorro quente. Nunca mais comi nada tão gostoso.

- Tenho a impressão que a comida de antigamente era muito melhor. O guisado de mandioca da minha mãe, não existe mais nada tão saboroso...E a gente arrotava mais gostoso a coca cola.

- E não fazia mal.

- Pois, não é? Hoje em dia açúcar faz mal, sal faz mal, arroz, qualquer doce é veneno...

- Mas é a idade...

- Ainda vai ter alguém para dizer que fazer sexo faz mal.

- Será?

- Não vai demorar...

- Ah, vou ouvir umas músicas do Beatles.

- Um sujeito religioso escreveu dias desses que eles não prestam, são demônios.

- Os Beatles?

- Sim

- Mania besta dessa gente, enfeitar o demônio. Se os Beatles são o demônio, entramos na seita faz tempos e nem percebemos.

- E não saímos nunca. Senti agora vontade de assoviar Let it be para chamar o sono.

- Falam o mesmo do Chico, Caetano, Belchior...

- A arte sempre incomodou os caretas. Por falar nisso, conseguimos escrever mais um livro.

- Sabe o que eu acho? Escritor velho sofre preconceito.

- Etarismo né?

- Sim, mas se reclamamos, é coisa de velho emburrado.

- O livro foi bem aceito.

- Está sendo, quem leu gostou. Mas muitos não falaram nada, quando não falam, das duas uma, ou leram e não gostaram ou não leram.

- Isso sempre foi assim.

- Será? Antigamente as pessoas liam mais livros. As redes sociais atrapalham, apagam o prazer da leitura, preferem imagens e vídeos.

- Uma pena, pouca coisa na vida dá mais prazer que a leitura.

- Acho bom a gente dormir. Amanhã cedo tem academia de ginástica.

- Nem me fale, odeio aquilo.

- Mas sem exercícios, morremos.

- Alimentação saudável e exercícios físicos regulares, temos que seguir esse mandamento.

- Odeio isso!

- Uma mísera porção de batatas fritas pode pôr tudo a perder.

- E quando o nutricionista fala para caprichar na verdura e legumes? Pode comer à vontade, ele diz, mas onde achar vontade de comer brócolis e rúcula?

- Emagrecemos dois quilos.

- Isso é bom.

- Mês que vem ficaremos um ano mais velho...

- A gente precisa viajar mais...

- Olha lá o cachorro pisando o capim molhado.

- Zzzzzzzz

- Ei, você cochilou, me deixou falando sozinho.

- O quê?

- Nada não, continue de olhos fechados, a campina mais adiante é a mesma vereda de antes...

- A água está mais limpa.

- Está sim, mas já passou faz muito tempo.

- Zzzzzzzzz, não faça barulho...

- Não sou eu, é a cachoeira...

- Vamos sentar para ver a água passar...

- Que barulho é esse?

- Não sei, mas é gostoso ouvir, rec, rec, rec...

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.