Aquidauana vive boom no turismo e se livra da dependência da pecuária
Município pantaneiro registra migração econômica nos últimos quatro anos, atraindo R$ 600 milhões
Na esteira do avanço da infraestrutura logística de Mato Grosso do Sul – impulsionada por obras como a pavimentação da rodovia MS-450, no Pantanal –, o turismo em Aquidauana, tradicional polo pecuarista, avançou e já abocanhou cerca de 10 pontos percentuais da pecuária, que antes representava entre 35% e 40% do PIB (Produto Interno Bruto) da cidade.
RESUMO
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Aquidauana, tradicional polo pecuarista de Mato Grosso do Sul, experimenta uma transformação econômica significativa com o avanço do turismo. O setor, que representa atualmente entre 10% e 15% do PIB municipal, ganhou força nos últimos cinco anos, reduzindo a dependência da pecuária, que recuou de 40% para 28% da economia local. A pavimentação da rodovia MS-450 e a proximidade com Campo Grande impulsionaram o desenvolvimento turístico da região. Fazendeiros têm diversificado seus negócios, convertendo propriedades em pousadas. A expectativa é que o turismo alcance 25% do PIB até 2028, beneficiando-se também da futura Rota Bioceânica, que conectará Brasil, Paraguai, Argentina e Chile.
Em entrevista ao Campo Grande News, o secretário de Gestão Estratégica de Aquidauana, Alexandre Gustavo Riva Périco, afirma que a força motriz econômica do município está migrando da pecuária para o turismo de forma acelerada, movimento que disparou nos últimos quatro ou cinco anos no período da pandemia.
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“Eu diria que a participação da pecuária migrou, em grande parte, para o turismo, e esse crescimento ocorreu nos últimos quatro ou cinco anos”, disse Périco, que trabalhou por mais de duas décadas em Wall Street. “É um resultado bastante expressivo, tanto para a economia quanto para a preservação do meio ambiente.”
A avaliação é de que pecuaristas da região pantaneira têm pegado carona no boom do turismo e diversificado seus negócios, convertendo parte das propriedades em pousadas e atraindo turistas de diversos lugares e países. O movimento impulsiona empreendimentos como hotéis, pesqueiros e cabanas, com impacto em toda a cadeia produtiva, geração de empregos e dinamismo econômico.
“Aquidauana, hoje chamada de ‘Búzios da população sul-mato-grossense’, vive uma mudança estrutural com o avanço do turismo”, avalia Périco. A cidade fica a 120 km de Campo Grande, responsável por cerca de 80% do turismo local.
Virada econômica no Pantanal
O cenário mostra que a pecuária vem perdendo espaço para o turismo, que hoje responde por cerca de 10% a 15% da economia, enquanto a atividade pecuária representa 28% do PIB municipal. O PIB foi estimado em 2021 em R$ 1,2 bilhão, com crescimento de 17% sobre 2020 – acima da média nacional, segundo os dados mais recentes do IBGE.
A estimativa é de que a pecuária tenha recuado entre 5 e 10 pontos percentuais, enquanto o turismo avançou na mesma proporção nos últimos quatro anos. A expectativa é que o setor de turismo alcance 25% do PIB do município até 2028, atraindo investimentos, estimulando o empreendedorismo e reduzindo a dependência da máquina pública. A cidade recebeu R$ 600 milhões nos últimos três anos, montante que deve ao menos dobrar no mesmo período futuro.
A administração pública, que já representou 33% do PIB, hoje responde por 26,3% –quase metade da média nacional (45%). O maior peso está no comércio e serviços (37%), que inclui o turismo. Com a expansão, a Secretaria criará indicadores específicos para o setor.
A projeção é de crescimento real acumulado do faturamento entre 25% e 30% até 2028.
Pandemia acelerou transformação
O secretário avalia que o turismo se intensificou nos últimos quatro anos, sobretudo durante a pandemia. Parte da população de Campo Grande com maior poder aquisitivo (classes A e B), que hoje responde por cerca de 80% do fluxo, buscou alternativas de lazer durante o distanciamento social.
A tendência é de novo impulso com a futura operação da Rota Bioceânica, que deve ampliar o fluxo de visitantes regionais, nacionais e internacionais.
Aquidauana está na zona de influência do corredor rodoviário que liga Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, conectando os oceanos Atlântico e Pacífico. O acesso ocorre por rodovias como a BR-262 e a BR-419, que ligam o município a Jardim, Bela Vista e Porto Murtinho.
Segundo o secretário, essas ligações estão concluídas ou em fase final, ampliando a integração e favorecendo investimentos, especialmente no turismo.
Uma dessas conexões liga a região a Bonito por estrada antes não pavimentada, encurtando o trajeto a partir de Campo Grande em cerca de 96 quilômetros.
Esse cenário tende a aumentar o fluxo turístico, já que visitantes de Bonito passam a utilizar o corredor internacional, transformando a região em extensão da experiência turística.
Pecuaristas migram para o turismo
O secretário destaca a corrida de pecuaristas para aproveitar o setor. Um exemplo é a Pousada Aguapé, instalada em fazenda pantaneira onde a pecuária coexiste com o turismo – modelo replicado na região. Outro caso é a Fazenda Barranco Alto, de proprietários suíços, que alia conservação ambiental e turismo.
“Muitas vezes, utilizam apenas uma pequena parte da propriedade e passam a gerar mais renda, empregar mais pessoas e contribuir mais com a economia local”, afirma. “A cadeia do turismo agrega muito mais valor econômico do que a pecuária.”
O turismo tem efeito multiplicador no emprego. Uma fazenda de 5 mil hectares pode operar com três funcionários, enquanto uma pousada com cerca de 30 leitos pode demandar ao menos 15 trabalhadores, além de restaurante e serviços.
Segundo dados do Sebrae-MS, o turismo gera 2,613 mil empregos formais em Aquidauana, concentrados em alimentação (1.558) e alojamento (cerca de 760).
Atividades como agências, cultura e lazer somam cerca de 170 vagas, enquanto o transporte terrestre responde por cerca de 57 empregos.
Considerando informais e efeitos indiretos, o setor sustenta entre 800 e 1.200 empregos adicionais, chegando a cerca de 2.500 postos no total na cadeia do turismo.
A tendência é de crescimento, impulsionada por três vetores: a Rota Bioceânica, eventos estruturantes, como Pantanal Tech, e o avanço da infraestrutura turística, com destaque para a MS-450, Estrada-Parque de Piraputanga, Mirante do Paxixi e a vinícola Terroir Pantanal.
Preservar vira negócio
Além do impacto econômico, há ganhos ambientais. “Conservar também gera receita, tornando a preservação economicamente viável”, afirmou.
A expansão foi impulsionada pela pavimentação da MS-450 em trecho de 18,5 km entre Palmeiras, Piraputanga e Camisão, integrando áreas antes isoladas, como a Serra de Maracaju, por onde passa o rio Aquidauana.
Com investimento de R$ 21,1 milhões, a obra facilitou o acesso e ampliou o potencial turístico. O trecho, com cerca de 30 quilômetros, consolidou-se como corredor gastronômico. Houve também valorização imobiliária, especialmente em Piraputanga e Camisão, onde está o Morro do Paxixi.
Périco assumiu o compromisso de modernizar a administração com foco em quatro pilares: modernização, capacitação, desenvolvimento econômico e monitoramento de indicadores.
“Estamos fazendo mudanças estruturais, com práticas de compliance e organização da governança para melhor atender o cidadão”, afirmou.
A estratégia inclui integração de sistemas, capacitação e indicadores, com apoio do Sebrae-MS. Também há aposta na captação de investimentos, estruturação de atrativos turísticos e valorização da identidade local, com festivais e mapeamento das vocações econômicas.







