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Artes

Entre canto de aves e rugido do bugio, Pantanal ganha voz em pesquisa musical

Por José Cândido | 20/02/2026 14:34
Entre canto de aves e rugido do bugio, Pantanal ganha voz em pesquisa musical
Projeto Pantanal Sounds investiga como a ecologia sonora pode ampliar a consciência ambiental e criar novas formas de composição contemporânea.(Foto pesquisadores da UFMS)

Pesquisadores brasileiros e estrangeiros se uniram em um projeto internacional de pesquisa artística para investigar como a ecologia sonora do Pantanal pode informar novas práticas composicionais. “No Pantanal Sounds, a partir da escuta crítica do território, reunimos pesquisadores de diferentes áreas para transformar relações ecológicas em criação musical”, comenta o professor da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação (Faalc) da UFMS, William Teixeira.

RESUMO

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Pesquisadores brasileiros e estrangeiros unem-se no projeto Pantanal Sounds para investigar a ecologia sonora do bioma e sua aplicação em composições musicais. A iniciativa, coordenada pelo professor William Teixeira da UFMS, conta com parceiros da Universidade de Harvard e Universidade Paris 8. O projeto registra sons da fauna, água, vento e presença humana, revelando padrões de ocupação e equilíbrio do ecossistema. As gravações são utilizadas em composições que serão apresentadas em eventos internacionais, incluindo a COP15 e universidades americanas, buscando ampliar a consciência ambiental através da música.

“Desde que ingressei na UFMS, em 2016, desejava aplicar no Pantanal as discussões sobre ecologia acústica formuladas por Raymond Murray Schafer. A ideia era investigar de que maneira as paisagens sonoras do Pantanal poderiam não apenas ser registradas, mas compreendidas como sistemas complexos de relações capazes de informar processos composicionais contemporâneos”, lembra o professor que coordena os trabalhos pela UFMS.

Além dele, estão envolvidos nos estudos pesquisadores da Universidade de Harvard e Universidade Paris 8. “A parceria com Harvard surgiu durante minha estadia como pesquisador visitante em 2023, com apoio da Fulbright. Em diálogo com o compositor Hans Tutschku, estruturamos uma missão financiada pelo David Rockefeller Center for Latin American Studies, que possibilitou a vinda de pesquisadores e estudantes ao Pantanal”, fala. “Posteriormente, a parceria com a Universidade Paris 8, por meio do musicólogo Makis Solomos, ampliou o projeto com financiamento Capes-Copfecub. Essa etapa incorporou um aparato crítico consolidado na área de ecologia sonora e fortaleceu a formação de pós-graduandos da UFMS em contexto internacional”.

De acordo com o professor, as pesquisas de Bernie Krause demonstram que o território sonoro revela relações entre espécies que ocupam áreas extensas e negociam sua presença ao longo do tempo. “O som permite perceber acordos, conflitos e sobreposições entre espécies, algo que imagens capturam apenas de forma fragmentada. Lacunas sonoras, por exemplo, podem indicar distúrbios ecológicos. Assim, o som funciona como um indicador sistêmico do equilíbrio ambiental”, explica Wiliam.

Segundo o pesquisador da Faalc, é preciso entender a ecologia sonora como um campo relacional entre indivíduo, sociedade e ambiente. “Portanto, interessam-nos sons da fauna, da água, do vento e também da presença humana. Na Base de Estudos do Pantanal da UFMS, no Passo do Lontra, onde a intervenção humana é menor, registramos paisagens com forte presença de aves, especialmente ao amanhecer e ao entardecer, além de mamíferos como o macaco bugio”, conta.

“Ao escutar o território, compreendemos o ecossistema como uma rede dinâmica de presenças simultâneas. Insetos, anfíbios e outras espécies pouco visíveis tornam-se centrais. O território sonoro funciona como uma cartografia não visual do espaço, revelando padrões de ocupação e equilíbrio que outros métodos nem sempre evidenciam”, fala. William explica que cada pesquisador realizou suas próprias gravações e adotou procedimentos distintos. “Em alguns casos, os sons foram utilizados em estado próximo ao original; em outros, passaram por processos de decomposição espectral, separação de fontes sonoras e modelagens computacionais. Utilizamos algoritmos que permitem isolar camadas acústicas e analisar relações entre espécies dentro de um mesmo ambiente. A tecnologia, nesse contexto, não substitui a escuta, mas a aprofunda”, diz.

O professor William relata que eles encontraram paisagens sonoras vastas e heterogêneas e que também foi possível perceber por meio dos sons o impacto do desmatamento e das queimadas. “O Pantanal é vasto e heterogêneo. No Passo do Lontra encontramos paisagens densas em vocalizações de aves e mamíferos. Em regiões próximas aos rios, é possível perceber com maior nitidez a presença de motores de barcos e máquinas agrícolas. Essas camadas coexistem e evidenciam a tensão entre ecossistema e atividade humana. Além disso, A redução de diversidade acústica e o surgimento de lacunas no espectro sonoro podem indicar desequilíbrios ambientais. A escuta permite identificar transformações que nem sempre são imediatamente perceptíveis visualmente”, conta. Ele também adverte para o risco de perder essas paisagens sonoras. “O risco é duplo: ecológico e cultural. A transformação do ecossistema compromete sua biodiversidade, enquanto a desvalorização das comunidades tradicionais ameaça saberes construídos ao longo de séculos. Registrar e escutar essas paisagens também é um gesto de memória”.

Em relação ao silêncio, Teixeira lembra que desde os anos 1960, John Cage demonstrou que o silêncio absoluto é uma construção conceitual. “Estamos sempre imersos em sons. Buscar o silêncio, nesse contexto, significa refinar a escuta e perceber camadas sonoras que normalmente são encobertas pelo ruído cotidiano. A escuta atenta é um exercício de consciência”, fala. Para ele o som mais marcante foi o do macaco bugio. “O som do macaco bugio durante a madrugada foi particularmente marcante. A intensidade e a vibração corporal desse som, em meio à escuridão, produziram uma experiência física da paisagem sonora. Não se tratava apenas de ouvir, mas de sentir o território”, ressalta.

Para o grupo, a música pode ampliar a consciência ambiental e alcançar públicos que a ciência não consegue atingir. “A música cria experiências sensoriais que reorganizam nossa percepção. Ao escutar uma obra derivada do território, o público não recebe apenas informação, mas vivencia relações sonoras. Essa experiência pode ampliar a sensibilidade para as dinâmicas ecológicas e para a necessidade de preservação. Ainda, a música cria outras formas de acesso ao conhecimento. Muitas pessoas chegam ao projeto por meio da experiência estética e, a partir dela, passam a se interessar pelo Pantanal e pelas questões ambientais que o atravessam”, fala.

Resultados

“Além das missões diretamente ligadas aos projetos, que possibilitaram a oferta de disciplinas por professores de Harvard e da Paris 8 no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens e recepção de pesquisadores de pós-graduação dessas instituições, podemos mencionar as estreias das peças resultantes em Paris, em 2025, na abertura do Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música, e, em breve, neste ano, a estreia de mais peças durante a COP15 e, mais adiante, em setembro de 2026, durante o Movimento Concerto. Essas peças também serão apresentadas em uma turnê que irei realizar em abril de 2026 nos Estados Unidos a partir de projeto financiado pela Fundect, que inclui recitais-palestras nas universidades de Harvard, Yale e Columbia”, destaca William. Duas peças estão disponíveis para visualização: Tóté, por José Henrique Padovani e A monada encontra o violoncelista no Pantanal, por Rael Gimenes.

Ele relata que o público, muitas vezes, recebe as apresentações com surpresa. “As obras dialogam com a música experimental e frequentemente provocam surpresa. Essa reação abre espaço para reflexão. O estranhamento inicial muitas vezes se converte em curiosidade e interesse pelo bioma que originou aquelas sonoridades”, diz. Para os pesquisadores, o objetivo é fazer com que o processo de escuta gere responsabilidade. “Esperamos que as pessoas saiam mais atentas aos sons do cotidiano e mais conscientes da importância do Pantanal. Escutar é um ato de responsabilidade”. Isso se dá porque nas apresentações, os pesquisadores se esforçam para que as dimensões da contemplação, inquietação e reflexão crítica coexistam. “A escuta pode ser contemplativa, mas também revela tensões. Toda criação carrega um ponto de vista. Escutar o território é também reconhecer sua vulnerabilidade”, completa

“O Pantanal fala através dos povos indígenas que nele vivem há séculos e que têm muito a nos ensinar sobre como conviver em harmonia em seu ecossistema tão único. E, o que esse povos nos ensinam, é a importância de respeitar essa biodiversidade que levou milênios para alcançar sua configuração atual”, acrescenta.

Intercâmbio e atenção global

“Desde o seu início, o projeto tem atraído a atenção de outras iniciativas globais de arte e ecologia que tem tido interesse em seus resultados e em novas parcerias. Cito como exemplo o projeto EcoLit, da Universidade de Colônia (Alemanha), que pesquisa o papel da música e da literatura no letramento ecológico. Também o grupo Intercultural Communication through Practice da Bath Spa University (Reino Unido) está associado por meio de sua coordenadora, a professora Amanda Bayley. Também podemos citar um dossiê recentemente organizado na Revista Vórtex junto ao artista sonoro Jacek Smolicki, presidente da Rede Centro Europeia de Ecologias Sonoras”, destaca William.

O professor ressalta que o intercâmbio entre os professores, pesquisadores e estudantes das instituições envolvidas promove a troca metodológica, amplia o alcance dos resultados e insere o Pantanal em debates globais sobre arte e ecologia, além de consolidar a UFMS como polo emergente de pesquisa em ecologia sonora. “Esperamos consolidar uma rede internacional permanente de pesquisa artística vinculada ao Pantanal, criar um acervo sonoro que funcione como memória ecológica do bioma e estabelecer uma residência artística que conecte o território ao debate global sobre arte e meio ambiente”, finaliza.

Entre canto de aves e rugido do bugio, Pantanal ganha voz em pesquisa musical
Pesquisadores do Brasil, Harvard e Universidade Paris 8 transformam sons da fauna, da água e do vento em composições que revelam o equilíbrio — e as ameaças — ao bioma (Foto pesquisadores da UFMS)