Ano novo, vida nova? Para muita gente, a virada só aumenta a pressão
Psicólogas explicam que a virada do calendário não é milagrosa, mas pode ser uma chance para novos inícios

Para muita gente, o fim de um ano e o começo do outro seguem o mesmo ritual: escrever promessas no caderno, fazer um balanço do que passou, sonhar com objetivos futuros, pular sete ondinhas, usar roupas específicas para tentar garantir um recomeço. Mas e quando tudo isso vira um problema?
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A virada do ano traz expectativas e rituais para muitas pessoas, mas especialistas alertam sobre os riscos da pressão emocional excessiva neste período. Psicólogas entrevistadas destacam que o ano novo é uma data simbólica, não uma garantia automática de mudanças. Para as profissionais, é importante manter esperanças e expectativas equilibradas, reconhecendo que transformações não dependem apenas da mudança do calendário. Elas sugerem que o otimismo seja visto como uma ferramenta para enfrentar desafios, não como uma negação dos problemas existentes.
Para parte da população, a virada do calendário não traz entusiasmo, e a ideia de que um novo ano necessariamente trará uma vida nova simplesmente não convence. Então, a chave aqui seria pensar no ano novo como uma possibilidade de recomeço, não como uma obrigação milagrosa.
Para entender por que isso acontece e como lidar com esse sentimento, o Lado B ouviu duas psicólogas que questionam a cobrança emocional criada em torno do ano novo.
Segundo a psicanalista Mary Berg, o novo ano é, antes de tudo, uma data simbólica. Um marco criado socialmente para organizar a ideia de recomeço. O problema surge quando esse símbolo se transforma em obrigação emocional, com a expectativa de que algo “tem que mudar” apenas porque o ano mudou.
“Tem que ter expectativas de mudança, porque não há vida em que a gente não coloque nenhuma expectativa. Mas também existem pessoas na desesperança, que não acreditam, e que podem estar vivendo situações muito complicadas. Há de tudo: há guerra, tristeza, doença”, afirma.
Ela explica que, na psicanálise, a esperança vem do verbo esperançar e não significa esperar que o sofrimento cesse, mas sustentar o desejo mesmo quando a angústia insiste.
“Muitas vezes, a solução de uma situação não depende apenas de uma única pessoa. A gente coloca expectativa em tudo o que vai fazer. Então, é importante que exista expectativa em relação a um ano novo, mas com outras possibilidades”, completa.
A psicóloga Cristiane Lang segue pela mesma trilha crítica. Para ela, tratar o otimismo e, consequentemente, a esperança como algo inútil é uma armadilha confortável.
“Há quem diga que otimismo é ingenuidade. Que, diante de um mundo cansado, polarizado, aquecido demais em todos os sentidos, projetar esperança para o futuro é coisa de tolo. Então, que sejamos”, provoca.
Segundo ela, entrar em 2026 com boas projeções não significa negar os problemas de 2025, mas reconhecer que, apesar deles, ainda é possível seguir em movimento.
Cristiane também aponta que o medo, quando bem direcionado, pode funcionar como um empurrão para mudanças, mesmo que de forma involuntária.
“Talvez 2026 seja o ano em que paremos de romantizar o colapso. Talvez estejamos aprendendo, aos poucos, que maturidade não é endurecer, é escolher melhor onde gastar energia. Ser otimista, em 2026, não será acreditar que tudo dará certo. Será acreditar que dá para fazer melhor do que antes. Que erros podem ser corrigidos, diálogos retomados e que decisões responsáveis, mesmo quando tristes, ainda valem a pena.”
No fim das contas, o ano novo não precisa carregar a promessa de felicidade imediata nem a obrigação de grandes transformações. Reduzir a pressão sobre a virada do calendário, ajustar expectativas e reconhecer limites pode ser um caminho mais honesto. O ano muda de uma vez. A vida, não. E talvez aceitar isso seja um começo mais possível.

