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Comportamento

Sem algodão, mulheres aprendem costura em tear reciclado

Elas usam até galhos de árvores para fazer as peças e o que poderia ser descarte virou ferramenta de trabalho

Por Natália Olliver | 26/02/2026 07:58
Sem algodão, mulheres aprendem costura em tear reciclado
Sem algodão, mulheres aprendem costura em tear reciclado (Foto: Arquivo pessoal)

No território Kadiwéu, quando o algodão deixou de ser plantado nos quintais e os fios naturais começaram a rarear, as mulheres não aceitaram o fim do tear. Abriram os guarda-roupas e desmancharam blusas de lã, puxaram fio por fio e recomeçaram. Hoje elas usam até material reciclado feito de madeiras e galhos para fazer as peças. O que poderia ser descarte vira ferramenta de trabalho.

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O projeto "Saberes Vivos", realizado pela Associação das Mulheres Artistas Kadiwéu (AMAK), busca preservar a arte da tecelagem tradicional na Aldeia Alves de Barros, em Porto Murtinho. Cerca de 30 mulheres participam da iniciativa, aprendendo com as seis anciãs que ainda dominam a técnica ancestral. A prática, documentada desde 1895 pelo artista Guido Boggiani, adaptou-se aos tempos modernos. Com a escassez do algodão local, as artesãs passaram a utilizar fios de roupas desmanchadas e materiais reciclados para criar faixas de cintura e outros artigos, mantendo viva uma tradição que é parte fundamental da identidade Kadiwéu.

 Cerca de 30 mulheres sentaram lado a lado na Aldeia Alves de Barros, em Porto Murtinho, para fazer o que as avós já faziam: tecer. A Oficina de Tear marcou o início do projeto “Saberes Vivos”, realizado pela AMAK (Associação das Mulheres Artistas Kadiwéu). Mais do que aprender pontos, elas decidiram impedir que um saber milenar virasse silêncio.

A preocupação partiu das próprias anciãs. Hoje, cerca de 6 guardiãs ainda dominam a técnica tradicional. Poucas mãos, muito conhecimento. O risco não era só perder uma peça artesanal, mas apagar parte da identidade Kadiwéu. E foram elas, as mais velhas, que ensinaram, com paciência e firmeza.

No tear de madeira, linhas coloridas ganham forma e se transformam em faixas de cintura, peças que já foram utilitárias e simbólicas, usadas principalmente pelos homens que saíam para o campo. A peça, além de adorno, também é ferramenta, estética e função.

Sem algodão, mulheres aprendem costura em tear reciclado
Sem algodão, mulheres aprendem costura em tear reciclado
Elas desmancharam blusas velhas para aprender a arte milenar (Foto: Arquivo pessoal)

Antes, o processo começava no quintal. O algodão era plantado, colhido, fiado. As cores vinham de flores, raízes e cascas de árvores. O projeto “Saberes Vivos” surgiu após o incentivo de uma parceira externa e contou com apoio da organização Angaí Projetos, de São Paulo.

Entre os dias 19 e 22 de março de 2025, uma atividade de prototipagem já havia sido realizada no barracão comunitário da aldeia, dentro do projeto “Arte e Moda Kadiwéu”, que pesquisa criação artística, planejamento produtivo e possibilidades no campo da economia criativa.

As próximas oficinas devem alcançar outras aldeias do território, como Campina e Córrego do Ouro, em diálogo direto com as lideranças ainda neste ano. Comenta a artista e estilista indígena Benilda Kadiwéu Examelexe.

Sem algodão, mulheres aprendem costura em tear reciclado
Sem algodão, mulheres aprendem costura em tear reciclado
Curso foi feito em aldeia indígena Alves de Barros, em Porto Murtinho (Foto: Arquivo pessoal)

Formada em design pela UCDB (Universidade Católica Bom Bosco), Benilda faz parte do projeto e comentou partes do que está acontecendo por lá.

"A tecelagem Kadiwéu não é recente na história. O artista italiano Guido Boggiani registrou artefatos e adornos do povo em 1895, na obra Os Caduveo. Décadas depois, em 1935, o antropólogo Claude Lévi-Strauss realizou trabalho de campo entre os Kadiwéu, levando parte das coleções etnográficas para a França. No Brasil, estudos conduzidos por Darcy Ribeiro, no fim dos anos 1940, reforçaram o registro histórico dessas peças no acervo do Museu do Índio".

Ela conta que a faixa ancestral também passou a ser chamada de faixa Paraguaia ou faixa Boiadeira, marcada por listras e cores vivas. Entre os povos indígenas como Terena, Kinikinau e Kaiowá, a técnica também existe, cada qual com sua estética e significado.

Creuza Vergílio, presidente da Associação das Mulheres Artistas Kadiwéu, reforça que antigamente as mulheres produziam faixas e bolsas de algodão.

"Como no decorrer do tempo o algodão foi extinto aqui na aldeia e para elas continuar fazer as bolsas, aí tem aqueles casacos, blusas, de lã, desmanchava para fazer a faixa e a bolsa. E nisso quando o projeto veio. De uma moça, viu, e ela fez um projeto sobre as mulheres da Associação aí incentivou. Ela trouxe linhas daqueles para fazer bolsas e faixa. Então, muitas mulheres da associação querem aprender".

No telefone, Creuza fala com humildade sobre o processo. Pede desculpas quando trava no português. Lembra que sua língua é outra, seu pensamento é outro. Mas não há tropeço quando o assunto é compromisso.

“Eu sempre busco ajudar a comunidade. Tentar ajudar as mulheres a resgatar a cultura, a tradição”, resume. Desde 2005, quando a associação começou a se estruturar, o objetivo é fortalecer o protagonismo feminino. Agora, com o projeto, muitas mulheres aprenderam a fazer as peças. "Isso foi muito importante para a Associação", destaca Creuza.

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