Sem algodão, mulheres aprendem costura em tear reciclado
Elas usam até galhos de árvores para fazer as peças e o que poderia ser descarte virou ferramenta de trabalho
No território Kadiwéu, quando o algodão deixou de ser plantado nos quintais e os fios naturais começaram a rarear, as mulheres não aceitaram o fim do tear. Abriram os guarda-roupas e desmancharam blusas de lã, puxaram fio por fio e recomeçaram. Hoje elas usam até material reciclado feito de madeiras e galhos para fazer as peças. O que poderia ser descarte vira ferramenta de trabalho.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
O projeto "Saberes Vivos", realizado pela Associação das Mulheres Artistas Kadiwéu (AMAK), busca preservar a arte da tecelagem tradicional na Aldeia Alves de Barros, em Porto Murtinho. Cerca de 30 mulheres participam da iniciativa, aprendendo com as seis anciãs que ainda dominam a técnica ancestral. A prática, documentada desde 1895 pelo artista Guido Boggiani, adaptou-se aos tempos modernos. Com a escassez do algodão local, as artesãs passaram a utilizar fios de roupas desmanchadas e materiais reciclados para criar faixas de cintura e outros artigos, mantendo viva uma tradição que é parte fundamental da identidade Kadiwéu.
Cerca de 30 mulheres sentaram lado a lado na Aldeia Alves de Barros, em Porto Murtinho, para fazer o que as avós já faziam: tecer. A Oficina de Tear marcou o início do projeto “Saberes Vivos”, realizado pela AMAK (Associação das Mulheres Artistas Kadiwéu). Mais do que aprender pontos, elas decidiram impedir que um saber milenar virasse silêncio.
A preocupação partiu das próprias anciãs. Hoje, cerca de 6 guardiãs ainda dominam a técnica tradicional. Poucas mãos, muito conhecimento. O risco não era só perder uma peça artesanal, mas apagar parte da identidade Kadiwéu. E foram elas, as mais velhas, que ensinaram, com paciência e firmeza.
No tear de madeira, linhas coloridas ganham forma e se transformam em faixas de cintura, peças que já foram utilitárias e simbólicas, usadas principalmente pelos homens que saíam para o campo. A peça, além de adorno, também é ferramenta, estética e função.
Antes, o processo começava no quintal. O algodão era plantado, colhido, fiado. As cores vinham de flores, raízes e cascas de árvores. O projeto “Saberes Vivos” surgiu após o incentivo de uma parceira externa e contou com apoio da organização Angaí Projetos, de São Paulo.
Entre os dias 19 e 22 de março de 2025, uma atividade de prototipagem já havia sido realizada no barracão comunitário da aldeia, dentro do projeto “Arte e Moda Kadiwéu”, que pesquisa criação artística, planejamento produtivo e possibilidades no campo da economia criativa.
As próximas oficinas devem alcançar outras aldeias do território, como Campina e Córrego do Ouro, em diálogo direto com as lideranças ainda neste ano. Comenta a artista e estilista indígena Benilda Kadiwéu Examelexe.
Formada em design pela UCDB (Universidade Católica Bom Bosco), Benilda faz parte do projeto e comentou partes do que está acontecendo por lá.
"A tecelagem Kadiwéu não é recente na história. O artista italiano Guido Boggiani registrou artefatos e adornos do povo em 1895, na obra Os Caduveo. Décadas depois, em 1935, o antropólogo Claude Lévi-Strauss realizou trabalho de campo entre os Kadiwéu, levando parte das coleções etnográficas para a França. No Brasil, estudos conduzidos por Darcy Ribeiro, no fim dos anos 1940, reforçaram o registro histórico dessas peças no acervo do Museu do Índio".
Ela conta que a faixa ancestral também passou a ser chamada de faixa Paraguaia ou faixa Boiadeira, marcada por listras e cores vivas. Entre os povos indígenas como Terena, Kinikinau e Kaiowá, a técnica também existe, cada qual com sua estética e significado.
Creuza Vergílio, presidente da Associação das Mulheres Artistas Kadiwéu, reforça que antigamente as mulheres produziam faixas e bolsas de algodão.
"Como no decorrer do tempo o algodão foi extinto aqui na aldeia e para elas continuar fazer as bolsas, aí tem aqueles casacos, blusas, de lã, desmanchava para fazer a faixa e a bolsa. E nisso quando o projeto veio. De uma moça, viu, e ela fez um projeto sobre as mulheres da Associação aí incentivou. Ela trouxe linhas daqueles para fazer bolsas e faixa. Então, muitas mulheres da associação querem aprender".
No telefone, Creuza fala com humildade sobre o processo. Pede desculpas quando trava no português. Lembra que sua língua é outra, seu pensamento é outro. Mas não há tropeço quando o assunto é compromisso.
“Eu sempre busco ajudar a comunidade. Tentar ajudar as mulheres a resgatar a cultura, a tradição”, resume. Desde 2005, quando a associação começou a se estruturar, o objetivo é fortalecer o protagonismo feminino. Agora, com o projeto, muitas mulheres aprenderam a fazer as peças. "Isso foi muito importante para a Associação", destaca Creuza.
Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial, Facebook e X. Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui).
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.






