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Política

Especialista defende papel do Exército no combate ao PCC na fronteira de MS

Francisco Carlos Teixeira sugere que Forças Armadas sejam empregadas como força auxiliar da Polícia Federal

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 29/08/2025 11:43
Especialista defende papel do Exército no combate ao PCC na fronteira de MS
agentes entram em presídio do Paraguai para transferência de líderes do PCC ao Brasil em 2024 (Foto: Marciano Candia/Arquivo)

O historiador Francisco Carlos Teixeira, da Universidade Federal Fluminense, alerta que a surpreendente descoberta de que os tentáculos do PCC (Primeiro Comando da Capital) atingem o coração do sistema financeiro e da economia formal deve abrir os olhos do governo brasileiro para a necessidade de uma ação planejada na origem dos negócios da facção: a faixa de fronteira que separa o país e, em especial, Mato Grosso do Sul, das bases principais dos traficantes, Bolívia e Paraguai. É por essa rota que passa o grosso da cocaína que abastece o mercado interno e transformou o Brasil em entreposto dos negócios da facção com a Europa e os Estados Unidos.

RESUMO

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O historiador Francisco Carlos Teixeira, da Universidade Federal Fluminense, defende a necessidade de ação planejada do governo brasileiro nas fronteiras com Bolívia e Paraguai para combater o PCC. Segundo ele, é fundamental definir o papel das Forças Armadas nesse contexto, seja com efetivo, inteligência ou tecnologia. O especialista destaca que a Operação Carbono Oculto revelou a conexão do crime organizado com o sistema financeiro, movimentando cerca de R$ 40 bilhões. Ele critica a omissão do Estado brasileiro no controle das prisões, o que permitiu o fortalecimento da facção criminosa até sua transformação em uma holding de crimes infiltrada na economia formal.

O especialista diz que a Operação Carbono Oculto escancarou a conexão do crime organizado com as fintechs instaladas na sofisticada Faria Lima, em São Paulo, maior centro financeiro da América do Sul. Mas lembra que o combate ao grande tráfico, motor da violência que virou um dos principais problemas do brasileiro, requer a participação das Forças Armadas. “Na faixa de fronteira de 50 km, as Forças Armadas têm poder de polícia. Mas é preciso capacitá-las para exercer esse papel — ou reforçar a Polícia Federal. O fundamental é definir se as Forças Armadas atuarão com efetivo, inteligência ou tecnologia, para evitar paralisia nas ações de combate”.

Especialista defende papel do Exército no combate ao PCC na fronteira de MS
Operação contra o PCC ontem desarticulou esquema que envolvia adulteração de etanol (Foto: Divulgação)

Estado omisso, PCC fortalecido

Teixeira sugere que o governo adote medidas legais para que o Exército possa atuar como força auxiliar dos órgãos de segurança civis coordenados pela Polícia Federal, mas observa que é necessário enfrentar os obstáculos jurídicos. “O problema no Brasil é que a legislação inverte essa lógica: coloca o Exército como força principal e a polícia como auxiliar. Em democracias como França e Inglaterra ocorre o contrário: militares garantem posições estratégicas e a polícia vai à linha-de-frente. Essa indefinição compromete a eficácia das operações”.

Para o especialista, uma das principais fontes que empoderam o PCC e geram seus lucros é a cocaína que sai da Bolívia e passa pelo Brasil. Mas ele acha que é um equívoco atribuir a responsabilidade do problema aos países vizinhos que, conforme registros históricos, cultivam e consomem a folha da coca 500 anos antes do descobrimento. “O Brasil é o maior fator de insegurança, porque gera a demanda. Parte para consumo interno, parte para exportação. Ao permitir que o PCC chegasse a esse porte, nos tornamos ameaça aos vizinhos. O PCC já se instalou dentro do Paraguai e da Bolívia. Temos fronteiras extremamente porosas”.

Francisco Carlos Teixeira chama a atenção para a responsabilidade do governo brasileiro que, por negligência no controle das prisões, acabou permitindo que a facção se organizasse até virar uma holding de crimes e negócios infiltrada na economia formal. “O Estado não falhou, se omitiu. Afastou-se do controle sobre o crime organizado e preferiu focar em crimes de rua para dar sensação de tranquilidade.

O PCC só chegou a essa potência porque o Estado foi omisso”, afirma. “Secretarias Estaduais de Segurança não tinham condições de enfrentar um esquema dessa magnitude. Então deixavam aquilo para lá e ficavam controlando o quê? Roubo de carteira, de automóvel, essas coisas todas, para dar uma sensação de tranquilidade para a população. E o tráfico continuou funcionando. O PCC só chegou a essa potência exatamente porque o Estado é omisso”.

O difícil agora, segundo ele, é reprimir uma organização com múltiplas características, inspirada ao mesmo tempo nas grandes máfias e nas sofisticadas lavanderias de dinheiro sujo. “Agora não será fácil desmobilizar a rede de postos de gasolina, importação e exportação, fintechs agindo como bancos. Estima-se R$ 40 bilhões em recursos. Pela primeira vez, o combate alcançou a Faria Lima. Isso abriu uma caixa-preta que atinge o mercado financeiro e expõe executivos. O combate ao tráfico deixou de ser uma ação contra bocas de fumo nas favelas”.

Disputa política e pressão internacional

Teixeira não tem dúvidas de que a operação facilitou a vida do governo na tramitação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança, que dormita num limbo chamado comissão especial na Câmara à espera, há 40 dias, da indicação dos integrantes pelos partidos. “A PEC da Segurança ganha força. A Faria Lima, que criticava o governo, virou alvo e agora está na defensiva. O governo Lula sai fortalecido, com uma pauta positiva além da disputa com Trump”.

Segundo o especialista, a operação integrada entre órgãos públicos federais e estaduais possui um importante conteúdo internacional: “Afasta do Brasil o fantasma da intervenção norte-americana de combate ao tráfico, como vem sendo usado abusivamente contra a Venezuela”. Ele lembra que a denúncia de ação “terrorista” do narcotráfico era uma carta na manga da extrema direita brasileira no cenário internacional.

Trump, segundo recorda, queria que o Brasil classificasse o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas para, em nome do combate ao tráfico, invadir países produtores ou de passagem da droga dentro de uma estratégia geopolítica de reconquistar a hegemonia da América do Sul frente à forte presença da China na região. “Trump queria que fossem considerados terroristas para poder agir. Se declara o PCC como terrorista, justifica-se uma intervenção armada no Brasil.

Num primeiro momento, isso seduziu muito Tarcísio de Freitas (Republicanos), que viu chance de ganhar recursos e treinamento para reforçar a segurança. Mas a Operação Carbono Oculto foi um avanço. Foi feita em sigilo e pegou de surpresa o capital financeiro. Agora há disputa pelo mérito — como o ‘filho é bonito’, todos querem ser o pai”, disse, ao se referir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a Tarcísio, prováveis adversários na disputa presidencial do ano que vem, que brigam pela paternidade da operação.

Teixeira afirma que o eixo da segurança na região vai depender do que acontecer na Venezuela, com a presença dos navios de guerra dos Estados Unidos se colocando ameaçadoramente em águas territoriais do país vizinho. Ele alerta, no entanto, que o risco de uma ação ostensiva dos militares americanos na Venezuela, com respingos no Brasil contra o PCC, ainda não está afastado. “Enquanto os navios americanos estiverem diante da Venezuela, considero grave. O Brasil se mantém calado, mas a Colômbia já se manifestou contra a intervenção”, cutuca.

Para ele, se a Marinha americana se aproximar da costa venezuelana, o presidente Nicolás Maduro não terá saída que não seja reagir para não se tornar uma presa, viva ou morta, de Trump, como os Estados Unidos fizeram com outros líderes e ditadores.