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Reportagens Especiais

Fugindo da 2ª Guerra, polonês deixou legado à família pioneira no mel em MS

Neto fez primeiro apiário em fazenda de Campo Grande e registrou empresa em 1982

Por Cassia Modena | 02/03/2026 14:55
Fugindo da 2ª Guerra, polonês deixou legado à família pioneira no mel em MS
Retrato do vovô Pedro estampado na embalagem do "colar" de mel (Foto: Renan Kubota)

Albano era um menininho que vivia atrás do avô pelos apiários do Rio Grande do Sul e depois do Paraná, onde moraram juntos. Foi com ele que aprendeu a gostar e não ter medo das abelhas. Quando entravam na mata para mexer com os insetos, nem roupa de proteção usavam, pois as espécies eram mansas. Acender um cachimbo bastava para acalmá-las.

RESUMO

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A história do Mel Vovô Pedro começou quando Pedro Demborgurski, imigrante polonês, fugiu da Segunda Guerra Mundial para o Brasil, trazendo consigo mais de 30 colmeias. Seu neto, Albano, cresceu acompanhando o avô nos apiários e, anos depois, fundou a primeira empresa de apicultura de Mato Grosso do Sul. Em 1982, Albano e sua esposa Sônia estabeleceram a empresa, que hoje produz 15 toneladas de mel mensalmente. Após o falecimento de Albano em 2022, seus filhos Alexangelo e Ariane assumiram o negócio ao lado da mãe, mantendo vivo o legado familiar que já alcança a quinta geração.

Vovô Pedro Demborgurski era polonês e veio para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial com a esposa e os filhos. Vieram de navio, trazendo mais de 30 colmeias da raça caucasiana. Após meses de viagem, restaram apenas três ou quatro delas quando chegaram. Recomeçaram assim mesmo.

Enquanto o avô se destacava na apicultura do novo país, o neto fazia curso numa escola agrícola e virava vendedor do mel produzido. Oferecia para os professores e colegas da escola em pequenas quantidades. Ainda era uma criança quando o apicultor morreu, em Foz do Iguaçu (PR). Teve que se despedir de quem deixaria muitas saudades com só oito anos de idade.

Fugindo da 2ª Guerra, polonês deixou legado à família pioneira no mel em MS
Albano (com macacão de apicultor), o pai e o filho Alexangelo manejando a produção das abelhas (Foto: Arquivo da família)

Albano Alexandrino Demborgurski cresceu apaixonado pelas abelhas, decidindo estudar Zootecnia. Na universidade, conheceu Sônia durante as aulas de apicultura. Casaram-se mais tarde.

Com os diplomas nas mãos, o casal veio para Campo Grande morar na fazenda dos pais de Albano. A propriedade ficava a cerca de 40 quilômetros da cidade e a criação de gado era a principal atividade. A mudança e a lembrança das colmeias do avô conduziram o neto a fundar a primeira empresa de apicultura de Mato Grosso do Sul ali.

Em 1982, o casal já tinha instalado algumas colmeias na propriedade para testar se daria certo. Houve dificuldades: no Centro-Oeste o clima era outro, o Cerrado tinha plantas tóxicas para as abelhas e o mercado era ainda muito limitado. Foram aprendendo a contornar esses problemas na base da tentativa e erro.

Fugindo da 2ª Guerra, polonês deixou legado à família pioneira no mel em MS
Albano, já mais velho, com parte do rosto coberto por abelhas; a família guarda a foto na atual loja (Foto: Renan Kubota)

A empresa homenageou aquele que ensinou tudo para Albano e foi registrada com o nome de Mel Vovô Pedro. Um retrato antigo do polonês foi estampado nos rótulos dos produtos para reforçar a referência.

Meta de uma lata por dia

Não havia concorrência naquela época. Os outros apicultores eram informais e produziam pouca coisa, lembra Sônia.

O casal deu o primeiro passo para a profissionalização registrando a empresa, mas alguns improvisos ainda os acompanhavam. Os recipientes onde vendiam o mel eram potes de maionese reutilizados e o decantador usado na fabricação era um cano de PVC de mais ou menos um metro.

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Banca do mel do Vovô Pedro montada na primeira feira do ramo (Foto: Arquivo de família)

Nessa época, criaram a primeira feira do mel de Campo Grande.Antes fraco, o mercado ia melhorando.

Depois que conseguiram a certificação necessária para serem fornecedores, um dos primeiros pontos de venda foi o supermercado da rede Extra que ficava na Avenida Maracaju. Albano colocou a meta de vender uma lata de mel por dia, e a atingiu. Já se sentia realizado com isso.

O filho mais velho, Alexangelo, havia começado a trabalhar na Mel Vovô Pedro como promotor de vendas aos 18 anos. Oferecia o produto de porta em porta pela cidade. Depois, assumiu as entregas.

Associação

Em meio ao crescimento da empresa, Sônia e Albano criaram a primeira associação de apicultores do Estado, a Asa (Associação Sul-mato-grossense de Apicultores).

Fugindo da 2ª Guerra, polonês deixou legado à família pioneira no mel em MS
Sônia ficou mais na parte administrativa no começo, mas passou a participar também da Asa (Foto: Renan Kubota)

Começaram devagar, achando que seria um hobby compartilhado com outras pessoas. Em alguns meses, se viram professores para novos apicultores. Davam cursos, recebiam alunos de escolas, universidades e iam passando o conhecimento para frente. A associação contribuiu para a atividade se expandir no Estado.

Pausa para falar sobre abelhas

A paixão do casal de apicultores e do vovô Pedro pelas abelhas tinha por que. Elas são animais fascinantes.

“Produzem o mel e o pólen, que vem daquela parte amarelinha da flor e que ela carrega nas patinhas. Fora isso, de dentro da cabeça da operária sai a geleia real. Tem ainda o própolis, que são resinas de árvores usadas como remédio por terem um poder antibactericida e fungicida. Nada se desenvolve no própolis, tanto que os egípcios o usavam para mumificar os mortos”, ensina Sônia.

Fugindo da 2ª Guerra, polonês deixou legado à família pioneira no mel em MS
Loja hoje vende cinco produtos feitos pelos insetos, incluindo o pólen (Foto: Renan Kubota)

A apicultora inclui a cera, uma substância produzida para alimentar os filhotes, que pode ser usada na indústria cosmética e farmacêutica. Até veneno pode ser retirado das abelhas para tratamentos de saúde em humanos. “A abelha é faxineira, é construtora. Ela faz o favo, que é perfeito em todas as medidas. Tem muitas qualidades e funções. É perfeita,” acrescenta.

Mas a principal função da abelha não é produzir. É polinizar. Sem isso, a maior parte dos alimentos do mundo não existia. "A abelha poliniza mais de 70% dos alimento no mundo. Sem a polinização, acabaria o alimento", explica Alexangelo.

Pandemia

A Mel Vovô Pedro já ia bem em Mato Grosso do Sul e enviava produtos para outros estados quando a Covid-19 surgiu. Apesar das restrições impostas pela pandemia, a disseminação de receitas para fortalecer a imunidade acabou impulsionando a empresa.

Fugindo da 2ª Guerra, polonês deixou legado à família pioneira no mel em MS
Produto feito a partir do própolis, que também vem da abelha (Foto: Renan Kubota)

Pelas propriedades medicinais, o própolis foi um dos produtos mais procurados naquele período. "Farmacêuticos que antes pegavam 12 vidrinhos por mês, pediam 1 mil, 2 mil", afirma Alexangelo. O mel também bateu recordes de vendas.

Albano partiu

Em 2022, num dos melhores momentos da empresa, Albano morreu. Teve uma meningite bacteriana e partiu repentinamente aos 64 anos. Ainda que abalada, a família deu continuidade ao negócio, agora em reverência não só ao Pedro, mas também ao neto dele.

Alexangelo e a irmã, Ariane, assumiram a empresa ao lado da mãe. Ele já havia se formado em Processamento de Dados e Engenharia Mecânica. Ela, em Medicina. Houve uma época em que Albano achou que cada filho iria para um lado diferente e que a Mel Vovô Pedro acabaria.

Fugindo da 2ª Guerra, polonês deixou legado à família pioneira no mel em MS
Albano em um apiário, instalação que conhece desde infância (Foto: Renan Kubota)

Aos poucos, eles iam se aproximando e o fundador ficou mais tranquilo. "Decidimos juntos que íamos abraçar, continuar a empresa e tal. Aí que ampliamos as instalações, aumentamos a indústria, a parte do barracão. As vendas melhoraram muito e foi aí que meu pai viu que a família continuaria com a empresa", conta o filho.

Modernização 

Com o conhecimento adquirido ao longo dos anos, o filho de Albano e Sônia ajudou a modernizar a Vovô Pedro com novos equipamentos e técnicas para seleção genética das abelhas produtoras. Já a filha passou a se dividir entre os pacientes e a publicidade da empresa da família, já bastante conhecida no Estado, cuidando das redes sociais da marca.

Sempre que pode, a família vai junta para feiras internacionais. Conhecem práticas diferentes e aprendem mais sobre melhoramento genético das abelhas criadas. A última foi na Dinamarca, com Alexangelo, a esposa farmacêutica e a filha Beatriz, primeira neta de Albano e Sônia, representando a empresa.

Atualmente, são seis funcionários contratados. Metade fica nos apiários e a outra metade na parte industrial. A família Demborgurski também segue colocando a mão na massa. A empresa produz cerca de 15 toneladas de mel por mês.

Fugindo da 2ª Guerra, polonês deixou legado à família pioneira no mel em MS
Frascos de mel com rótulos da marca hoje enfileirados nas prateleiras da Cidade das Abelhas (Foto: Renan Kubota)

Cidade das Abelhas

Desde que os filhos eram pequenos, Sônia e Albano moram numa propriedade na BR-163, na Capital, com cara de chácara, onde vendem mel e os outros produtos da abelha. Ela se chama Cidade das Abelhas.

Todos continuam morando juntos ainda hoje, cada um em sua casa. O membro mais novo entre eles é Alvaro, nascido há apenas um mês, filho de Ariane e seu marido. Outro bebê está a caminho e é Artur, o irmão da Beatriz.

Para o futuro, o que os apicultores querem, a princípio, não é exportar os produtos e trazer novas exigências para a produção. Prezam somente por manter a qualidade do mel, o respeito pela marca e a família unida.

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Ariane, Sônia com o neto Alvaro no colo e Alexangelo na área industrial da empresa (Foto: Renan Kubota)

"O nosso projeto é passar a produção de mel para a quinta geração, passar com esse carinho, com esse amor que a gente tem pelas abelhas, pelo negócio e pela nossa família", deseja Sônia.

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