Fugindo da 2ª Guerra, polonês deixou legado à família pioneira no mel em MS
Neto fez primeiro apiário em fazenda de Campo Grande e registrou empresa em 1982
Albano era um menininho que vivia atrás do avô pelos apiários do Rio Grande do Sul e depois do Paraná, onde moraram juntos. Foi com ele que aprendeu a gostar e não ter medo das abelhas. Quando entravam na mata para mexer com os insetos, nem roupa de proteção usavam, pois as espécies eram mansas. Acender um cachimbo bastava para acalmá-las.
RESUMO
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A história do Mel Vovô Pedro começou quando Pedro Demborgurski, imigrante polonês, fugiu da Segunda Guerra Mundial para o Brasil, trazendo consigo mais de 30 colmeias. Seu neto, Albano, cresceu acompanhando o avô nos apiários e, anos depois, fundou a primeira empresa de apicultura de Mato Grosso do Sul. Em 1982, Albano e sua esposa Sônia estabeleceram a empresa, que hoje produz 15 toneladas de mel mensalmente. Após o falecimento de Albano em 2022, seus filhos Alexangelo e Ariane assumiram o negócio ao lado da mãe, mantendo vivo o legado familiar que já alcança a quinta geração.
Vovô Pedro Demborgurski era polonês e veio para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial com a esposa e os filhos. Vieram de navio, trazendo mais de 30 colmeias da raça caucasiana. Após meses de viagem, restaram apenas três ou quatro delas quando chegaram. Recomeçaram assim mesmo.
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Enquanto o avô se destacava na apicultura do novo país, o neto fazia curso numa escola agrícola e virava vendedor do mel produzido. Oferecia para os professores e colegas da escola em pequenas quantidades. Ainda era uma criança quando o apicultor morreu, em Foz do Iguaçu (PR). Teve que se despedir de quem deixaria muitas saudades com só oito anos de idade.

Albano Alexandrino Demborgurski cresceu apaixonado pelas abelhas, decidindo estudar Zootecnia. Na universidade, conheceu Sônia durante as aulas de apicultura. Casaram-se mais tarde.
Com os diplomas nas mãos, o casal veio para Campo Grande morar na fazenda dos pais de Albano. A propriedade ficava a cerca de 40 quilômetros da cidade e a criação de gado era a principal atividade. A mudança e a lembrança das colmeias do avô conduziram o neto a fundar a primeira empresa de apicultura de Mato Grosso do Sul ali.
Em 1982, o casal já tinha instalado algumas colmeias na propriedade para testar se daria certo. Houve dificuldades: no Centro-Oeste o clima era outro, o Cerrado tinha plantas tóxicas para as abelhas e o mercado era ainda muito limitado. Foram aprendendo a contornar esses problemas na base da tentativa e erro.

A empresa homenageou aquele que ensinou tudo para Albano e foi registrada com o nome de Mel Vovô Pedro. Um retrato antigo do polonês foi estampado nos rótulos dos produtos para reforçar a referência.
Meta de uma lata por dia
Não havia concorrência naquela época. Os outros apicultores eram informais e produziam pouca coisa, lembra Sônia.
O casal deu o primeiro passo para a profissionalização registrando a empresa, mas alguns improvisos ainda os acompanhavam. Os recipientes onde vendiam o mel eram potes de maionese reutilizados e o decantador usado na fabricação era um cano de PVC de mais ou menos um metro.
Nessa época, criaram a primeira feira do mel de Campo Grande.Antes fraco, o mercado ia melhorando.
Depois que conseguiram a certificação necessária para serem fornecedores, um dos primeiros pontos de venda foi o supermercado da rede Extra que ficava na Avenida Maracaju. Albano colocou a meta de vender uma lata de mel por dia, e a atingiu. Já se sentia realizado com isso.
O filho mais velho, Alexangelo, havia começado a trabalhar na Mel Vovô Pedro como promotor de vendas aos 18 anos. Oferecia o produto de porta em porta pela cidade. Depois, assumiu as entregas.
Associação
Em meio ao crescimento da empresa, Sônia e Albano criaram a primeira associação de apicultores do Estado, a Asa (Associação Sul-mato-grossense de Apicultores).

Começaram devagar, achando que seria um hobby compartilhado com outras pessoas. Em alguns meses, se viram professores para novos apicultores. Davam cursos, recebiam alunos de escolas, universidades e iam passando o conhecimento para frente. A associação contribuiu para a atividade se expandir no Estado.
Pausa para falar sobre abelhas
A paixão do casal de apicultores e do vovô Pedro pelas abelhas tinha por que. Elas são animais fascinantes.
“Produzem o mel e o pólen, que vem daquela parte amarelinha da flor e que ela carrega nas patinhas. Fora isso, de dentro da cabeça da operária sai a geleia real. Tem ainda o própolis, que são resinas de árvores usadas como remédio por terem um poder antibactericida e fungicida. Nada se desenvolve no própolis, tanto que os egípcios o usavam para mumificar os mortos”, ensina Sônia.
A apicultora inclui a cera, uma substância produzida para alimentar os filhotes, que pode ser usada na indústria cosmética e farmacêutica. Até veneno pode ser retirado das abelhas para tratamentos de saúde em humanos. “A abelha é faxineira, é construtora. Ela faz o favo, que é perfeito em todas as medidas. Tem muitas qualidades e funções. É perfeita,” acrescenta.
Mas a principal função da abelha não é produzir. É polinizar. Sem isso, a maior parte dos alimentos do mundo não existia. "A abelha poliniza mais de 70% dos alimento no mundo. Sem a polinização, acabaria o alimento", explica Alexangelo.
Pandemia
A Mel Vovô Pedro já ia bem em Mato Grosso do Sul e enviava produtos para outros estados quando a Covid-19 surgiu. Apesar das restrições impostas pela pandemia, a disseminação de receitas para fortalecer a imunidade acabou impulsionando a empresa.
Pelas propriedades medicinais, o própolis foi um dos produtos mais procurados naquele período. "Farmacêuticos que antes pegavam 12 vidrinhos por mês, pediam 1 mil, 2 mil", afirma Alexangelo. O mel também bateu recordes de vendas.
Albano partiu
Em 2022, num dos melhores momentos da empresa, Albano morreu. Teve uma meningite bacteriana e partiu repentinamente aos 64 anos. Ainda que abalada, a família deu continuidade ao negócio, agora em reverência não só ao Pedro, mas também ao neto dele.
Alexangelo e a irmã, Ariane, assumiram a empresa ao lado da mãe. Ele já havia se formado em Processamento de Dados e Engenharia Mecânica. Ela, em Medicina. Houve uma época em que Albano achou que cada filho iria para um lado diferente e que a Mel Vovô Pedro acabaria.
Aos poucos, eles iam se aproximando e o fundador ficou mais tranquilo. "Decidimos juntos que íamos abraçar, continuar a empresa e tal. Aí que ampliamos as instalações, aumentamos a indústria, a parte do barracão. As vendas melhoraram muito e foi aí que meu pai viu que a família continuaria com a empresa", conta o filho.
Modernização
Com o conhecimento adquirido ao longo dos anos, o filho de Albano e Sônia ajudou a modernizar a Vovô Pedro com novos equipamentos e técnicas para seleção genética das abelhas produtoras. Já a filha passou a se dividir entre os pacientes e a publicidade da empresa da família, já bastante conhecida no Estado, cuidando das redes sociais da marca.
Sempre que pode, a família vai junta para feiras internacionais. Conhecem práticas diferentes e aprendem mais sobre melhoramento genético das abelhas criadas. A última foi na Dinamarca, com Alexangelo, a esposa farmacêutica e a filha Beatriz, primeira neta de Albano e Sônia, representando a empresa.
Atualmente, são seis funcionários contratados. Metade fica nos apiários e a outra metade na parte industrial. A família Demborgurski também segue colocando a mão na massa. A empresa produz cerca de 15 toneladas de mel por mês.

Cidade das Abelhas
Desde que os filhos eram pequenos, Sônia e Albano moram numa propriedade na BR-163, na Capital, com cara de chácara, onde vendem mel e os outros produtos da abelha. Ela se chama Cidade das Abelhas.
Todos continuam morando juntos ainda hoje, cada um em sua casa. O membro mais novo entre eles é Alvaro, nascido há apenas um mês, filho de Ariane e seu marido. Outro bebê está a caminho e é Artur, o irmão da Beatriz.
Para o futuro, o que os apicultores querem, a princípio, não é exportar os produtos e trazer novas exigências para a produção. Prezam somente por manter a qualidade do mel, o respeito pela marca e a família unida.

"O nosso projeto é passar a produção de mel para a quinta geração, passar com esse carinho, com esse amor que a gente tem pelas abelhas, pelo negócio e pela nossa família", deseja Sônia.
Confira a galeria de imagens:
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