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Reportagens Especiais

Nem mesmo alta da construção resolve falta de moradias em Inocência

Com a chegada da Arauco, população dobrou e aluguéis foram às alturas; prefeito estima déficit de 2 mil casas

Por Mylena Fraiha, enviada a Inocência | 10/02/2026 09:45
Nem mesmo alta da construção resolve falta de moradias em Inocência
Em Inocência, construções aparecem lado a lado na mesma rua (Foto: Osmar Veiga).
Basta caminhar alguns minutos por Inocência, a 339 quilômetros de Campo Grande, para perceber que a cidade vive um momento de expansão, tanto econômica quanto populacional. Terrenos em obras se espalham por diferentes bairros e, na região central, lojas de materiais de construção funcionam praticamente lado a lado. Entretanto, nem mesmo o "boom" da construção tem suprido a alta demanda por moradia, nem contido a escalada nos preços de terrenos e aluguéis.

Com 8 mil habitantes até o anúncio da implantação da megafábrica de celulose da empresa chilena Arauco, prevista para entrar em operação em 2027, o município viu sua população praticamente dobrar em poucos meses e hoje tem aproximadamente 16 mil pessoas entre moradores fixos e trabalhadores das etapas iniciais da obra. A previsão é que, no pico estimado para 2027, a população possa alcançar entre 27 mil e 28 mil pessoas.

Ao passo que a cidade cresce, a falta de moradia e a especulação imobiliária se tornaram reflexos diretos desse avanço acelerado. O Campo Grande News mostrou, em fevereiro do ano passado, que a obra da fábrica resultou em uma explosão de preços no setor imobiliário.

RESUMO

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A cidade de Inocência, localizada a 339 quilômetros de Campo Grande, enfrenta uma grave crise habitacional devido à instalação da megafábrica de celulose Arauco. A população dobrou em poucos meses, saltando de 8 mil para 16 mil habitantes, com previsão de alcançar 28 mil pessoas até 2027. O impacto no mercado imobiliário é significativo, com terrenos de 360m² chegando a R$ 180 mil e aluguéis disparando de R$ 700 para até R$ 5 mil. O município enfrenta um déficit de 2 mil casas, levando moradores antigos a se mudarem para cidades vizinhas. A prefeitura busca soluções junto aos governos estadual e federal, com planos para construção de 200 moradias populares.

Um ano depois, o cenário segue o mesmo. Hoje, terrenos de 360 m² chegam a custar R$ 180 mil, valor semelhante ao de bairros em expansão na Capital, como Rita Vieira e Universitário. O aumento também atinge os aluguéis. Imóveis que custavam entre R$ 500 e R$ 700 passaram a ser anunciados por até R$ 5 mil. Kitnets dificilmente são encontradas por menos de R$ 3.500.

O prefeito de Inocência, Antonio Angelo Garcia dos Santos, o Toninho da Cofapi (PP), afirma que a alta começou no dia em que foi anunciado o empreendimento. “A especulação imobiliária começou no dia 22 de junho de 2022, quando anunciaram o lançamento”, disse.

Segundo ele, o município enfrenta atualmente um déficit de até 2 mil casas, especialmente para trabalhadores que irão chegar à cidade para o plantio de eucalipto nos próximos meses. “Isso é um dos nossos principais problemas, já estamos conversando com o governo estadual e federal”, explica. Já para os trabalhadores que ficarão na fábrica, Toninho explica que já está em construção um loteamento de 600 casas que serão feitas pela própria Arauco.

Nem mesmo alta da construção resolve falta de moradias em Inocência
Casas construídas pela Arauco para atender seus trabalhadores (Foto: Osmar Veiga).

Sem apresentar números detalhados, o prefeito relata que o aumento nos preços também afastou moradores antigos. “Vão para Paranaíba, vão para Cassilândia, vão para Três Lagoas, vão para Água Clara. Alguns alugam suas casas e se mudam para cidades vizinhas para ter uma renda melhor. Tudo isso tem acontecido”.

Ele também afirma que há casos de despejo que chegam até ele. “Casa popular realmente é uma prioridade. Tenho 5 mil contatos. Cada hora eu recebo uma mensagem: ‘Ô Toninho, eu tô sendo despejada, e eu não tenho para onde ir com meu filho’. Isso machuca”.

Oportunidade de mercado - Os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), divulgados no fim de janeiro pelo MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), confirmam o aumento no número de trabalhadores da construção. Em 2025, Inocência criou 2.349 vagas com carteira assinada no acumulado do ano, o segundo maior de Mato Grosso do Sul, atrás apenas de Campo Grande. O setor mais beneficiado até agora é a construção civil.

Nem mesmo alta da construção resolve falta de moradias em Inocência
Propaganda em loja de construção civil na região central de Inocência (Foto: Osmar Veiga).

A empresária Cristina Francisca de Almeida, que atua na venda de materiais e na construção de imóveis, afirma que a demanda cresceu de forma exponencial. Antes, mantinha um mercado no Centro; hoje investe em construções, inclusive com estruturas em contêiner.

"Fomos os primeiros a trazer contêiner para cá. Fizemos um alojamento misto, parte contêiner e parte alvenaria”, relata. Segundo Cristina, a estrutura metálica garante rapidez na execução e retorno financeiro mais ágil. “Quem quer algo rápido vai para o contêiner. Alvenaria é para a vida toda".

Nem mesmo alta da construção resolve falta de moradias em Inocência
Cristina durante atendimento em loja de produtos de construção, na região central de Inocência (Foto: Osmar Veiga).

Para ela, o principal gargalo hoje é o valor dos lotes. “O problema é o terreno. Antes você comprava por R$ 30 mil, R$ 50 mil. Um terreno muito bom era R$ 80 mil. Hoje é R$ 150 mil, R$ 200 mil”.

Com isso, o custo final das casas também subiu. Cristina explica que uma residência simples, de dois quartos, gira em torno de R$ 320 mil. “Antes, com R$ 180 mil, que era o valor que a Caixa aprovava, dava para comprar o terreno e construir uma casa boa. Hoje não dá mais”.

Nem mesmo alta da construção resolve falta de moradias em Inocência
Homem trabalha na construção de galpão na região central de Inocência (Foto: Osmar Veiga).

O boom também atraiu investidores de Campo Grande. O empresário Vanderly Ortega, de 42 anos, atua nos setores de construção e alimentação e acompanha a expansão da cadeia da celulose. “Começou em Ribas e agora estamos em Inocência. Tudo indica que depois vamos para Aparecida do Taboado também. A gente vai meio que seguindo esse fluxo das indústrias”.

Ele considera o crescimento da construção civil natural, mas aponta a falta de mão de obra local como dificuldade. “Quando vieram as empresas, essa mão de obra foi absorvida. Você praticamente não encontra mais pedreiro disponível na cidade”.

Segundo Vanderly, pedreiros recebem entre R$ 5 mil e R$ 6 mil mensais, enquanto ajudantes ganham de R$ 3 mil a R$ 4 mil. Na diária, os valores variam de R$ 150 a R$ 200. Ainda assim, manter equipes é desafiador, já que trabalhadores deixam obras ao receber propostas melhores.

Nem mesmo alta da construção resolve falta de moradias em Inocência
Apesar dos custos, Vanderly avalia que o retorno compensa (Foto: Osmar Veiga).

A moradia também é entrave para empresários. “Casas simples estão entre R$ 8 mil e R$ 10 mil. Hotéis são raros e caros”, afirma. Para contornar o problema, ele construiu alojamentos próprios para funcionários trazidos de fora. “A gente contrata em Campo Grande, traz para cá, aloja e mantém trabalhando na operação”.

Apesar dos custos, Vanderly avalia que o retorno compensa. “Um ano aqui equivale a cinco anos em outra cidade”.

Nem mesmo alta da construção resolve falta de moradias em Inocência
Jileison explica que grande parte das construções envolve alojamentos e serviços ligados à instalação da indústria (Foto: Osmar Veiga).

Entre os trabalhadores que migraram está Jileison Nascimento dos Santos, de 35 anos, natural da Bahia. Ele já passou por São Paulo e hoje atua como funcionário administrativo da Lopes Engenharia, empresa que realiza escavações, terraplanagem, drenagem e obras civis. “Tem bastante oportunidade de emprego e com facilidade. E sobre o salário, não tenho do que reclamar. Para a minha função está bom, sou do administrativo”, afirma.

Segundo Jileison, grande parte das construções envolve alojamentos e serviços ligados à instalação da indústria. “Estamos trabalhando na própria fábrica também. Fazemos drenagem, bocas de lobo, lagoas”.

Preços nas alturas - No mercado imobiliário, a transformação também é visível. O corretor Admilson Marques de Freitas, 59 anos, natural de Rio Brilhante e há mais de 35 anos em Inocência, avalia que a cidade “mudou da água para o vinho”.

Admilson também aponta que há escassez de novos loteamentos. “Está saindo um agora, mas os antigos já foram vendidos. Na imobiliária mesmo não tem mais nada, só de terceiros. Em média, um terreno está entre R$ 150 mil e R$ 180 mil. Não se encontra nada abaixo disso”.

Sobre aluguéis, o corretor de imóveis confirma a alta. “Uma casa simples hoje, de Cohab, está entre R$ 3.500 e R$ 4 mil. Kitnet, R$ 2.500 a R$ 3 mil. Não se acha nada por menos que isso. A região mais valorizada é o Centro”.

Para ele, o boom deve durar cerca de dois anos. “Não vai continuar nesse ritmo, mas também não volta ao que era. Uma casa que era R$ 1 mil e hoje está R$ 4 mil talvez volte para R$ 2 mil, não para R$ 1 mil”.

Nem mesmo alta da construção resolve falta de moradias em Inocência
Admilson aponta que há escassez de novos loteamentos em Inocência (Foto: Osmar Veiga).

A sócia-proprietária da Inocência Imóveis, Gabriela Paschoaleto, 40 anos, afirma que a maioria dos contratos hoje é firmada com empresas. “Hoje, a maioria dos contratos é com CNPJ. Empresa consegue pagar, pessoa física não. Tem proprietário que ganha R$ 40 mil, R$ 80 mil por mês com aluguel. E a população acha que é a imobiliária que coloca o preço, mas a gente só intermedia. O proprietário define o valor e a gente formaliza o contrato”.

Segundo Gabriela, moradores antigos estão entre os mais prejudicados. “Muita gente que pagava R$ 1 mil passou para R$ 4 mil. Foi embora para Três Lagoas, Paranaíba, Cassilândia, fazenda, sítio. Temos caso de família que morava há quatro ou cinco anos na mesma casa, o imóvel foi vendido e o novo aluguel passou para R$ 4 mil ou R$ 5 mil. Não conseguiram pagar”.

Mais casas - O prefeito afirmou que a habitação popular se tornou prioridade diante do aumento da demanda por moradia no município. Em agosto do ano passado, o Governo do Estado, por meio da Agehab (Agência de Habitação Popular do Estado de Mato Grosso do Sul), assinou convênio com o município de Inocência para a construção de novas unidades habitacionais.

O convênio contempla a construção de moradias em uma área de 25 hectares, que será parcelada em aproximadamente 560 lotes destinados às famílias beneficiadas. Como medida imediata, Prefeitura e Governo do Estado preveem o início da construção de cerca de 200 moradias nos próximos meses, numa tentativa de amenizar a situação mais urgente.

Nem mesmo alta da construção resolve falta de moradias em Inocência
Toninho explica que tem feito articulações com o governo estadual e o governo federal para expandir número de casas populares (Foto: Osmar Veiga).

Quero licitar até o dia 15 de março”, afirmou. “Isso [falta de moradia] vai melhorar a partir dessas habitações, das casas populares e também dos loteamentos que estão chegando e sendo implantados agora”, destacou o prefeito de Inocência.

O prefeito também mencionou articulações com o governo federal para garantir novos lotes e recursos. “Falei com o ministro [Renan Filho], brinquei com ele, e ele disse: ‘Esqueci de falar com você’. Eu respondi: ‘O senhor não pode esquecer de mim. É lá em Brasília que eu preciso disso’. A gente vai lutar”, afirmou Toninho.

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