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Artes

Jornalista revisita Mato Grosso do Sul com olhar crítico, memória e fotografia

Na 3ª edição da obra, ele quer mostrar Estado de múltiplos potenciais, sem esconder suas contradições

Por Thailla Torres | 26/03/2026 17:07
Jornalista revisita Mato Grosso do Sul com olhar crítico, memória e fotografia
Prédio histórico da antiga Padaria Cuê, em Porto Murtinho, guarda marcas da arquitetura. (Foto: Paulo Renato Coelho Netto)

Há quase três décadas, o jornalista Paulo Renato Coelho Netto percorre Mato Grosso do Sul tentando mostrar o Estado como ele é. Bonito, vasto, complexo, promissor e, ao mesmo tempo, cheio de gargalos que muita gente prefere não ver.

Agora, às vésperas dos 50 anos da divisão do Estado, ele prepara a 3ª edição do livro Mato Grosso do Sul, obra visual e documental que começou a ser construída ainda nos anos 1990 e que deve ser lançada no segundo semestre de 2027. A nova edição virá em formato de livro de arte, mas também em e-book gratuito e audiolivro em português, inglês e espanhol.

A proposta é ampliar o alcance de um trabalho que ele não quer restrito a poucos leitores.

“Eu não queria fazer um livro para mil pessoas terem acesso. Isso eu acho injusto”, resume Paulo. A saída encontrada foi transformar a obra também em material digital, gratuito e acessível em qualquer lugar do mundo.

Jornalista revisita Mato Grosso do Sul com olhar crítico, memória e fotografia
Antiga estação ferroviária de Ponta Porã revela um tempo em que os trilhos conectavam cidades e histórias no interior do Estado.
Jornalista revisita Mato Grosso do Sul com olhar crítico, memória e fotografia
Fachada imponente do Instituto Luís de Albuquerque, em Corumbá, reforça a importância histórica e educacional da região. (Foto: Paulo Renato Coelho Netto)

Mais do que um livro comemorativo, o projeto quer funcionar como registro de época. Um retrato de Mato Grosso do Sul em diferentes camadas com paisagem, história, arqueologia, turismo, economia, infraestrutura, memória e identidade.

Paulo fala da obra como quem monta um quebra-cabeça longo e paciente. Não por acaso. Boa parte das fotografias que devem entrar na nova edição foi produzida em 1999, em cromos e slides, e agora passa por um processo de restauração. Ele também está buscando tradutores nativos e uma editora especializada em livros de arte para cuidar da nova fase do projeto.

Mas o que move o jornalista não é apenas a vontade de reeditar um trabalho antigo. É a insistência em mostrar um Estado que, segundo ele, ainda é pouco conhecido até por quem vive aqui.

“O que ainda mais me surpreende é a beleza desse Estado e o fato de as pessoas não conhecerem”, diz.

Essa constatação ajuda a explicar o peso das imagens no projeto. As fotografias feitas por Paulo não aparecem apenas como ilustração. Elas funcionam como narrativa. A antiga estação ferroviária de Ponta Porã, a Padaria Cuê em Porto Murtinho, a usina desativada em Dourados, o Instituto Luís de Albuquerque em Corumbá, o Forte Coimbra, a Igreja Matriz de Aquidauana e o 10º Regimento de Cavalaria Mecanizada, em Bela Vista, ajudam a formar um mosaico de um Mato Grosso do Sul histórico, simbólico e, muitas vezes, esquecido.

Jornalista revisita Mato Grosso do Sul com olhar crítico, memória e fotografia
Estrutura desativada da Usina Filinto Müller, em Dourados, é símbolo de um ciclo econômico que ficou no passado. (Foto: Paulo Renato Coelho Netto)
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Forte Coimbra, às margens do Rio Paraguai, é um dos marcos históricos mais importantes do Pantanal sul-mato-grossense. (Foto: Paulo Renato Coelho Netto)

Em outra frente, imagens como a do capítulo sobre contrabando de aves reforçam que o livro não pretende cair na armadilha de mostrar só o lado positivo. Paulo deixa claro que não está interessado em vender um paraíso artificial.

“Eu não estou aqui para pintar que é o Estado mais bonito do mundo. A gente tem nossos problemas”, afirma.

Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes da nova edição: o livro quer valorizar Mato Grosso do Sul sem fechar os olhos para suas fragilidades. Ao longo da entrevista, Paulo cita gargalos de infraestrutura, atropelamento de animais nas rodovias, turismo subutilizado e a necessidade de pensar o desenvolvimento de forma mais ampla, com acesso à educação, cultura e formação técnica. Ainda assim, o sentimento predominante é de encantamento.

Nos novos capítulos, ele pretende passar por lugares como Serra do Amolar, Serra da Bodoquena, Morro do Paxixi, Bioparque Pantanal, Porto Murtinho e Alcinópolis, onde a presença de sítios arqueológicos e arte rupestre amplia ainda mais a noção de tempo sobre o território sul-mato-grossense. A ideia é mostrar que a história local não começa apenas com a ocupação recente, mas alcança milhares de anos.

Jornalista revisita Mato Grosso do Sul com olhar crítico, memória e fotografia
Igreja Matriz de Aquidauana se destaca pela arquitetura e pela presença simbólica na vida da cidade.
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Registro evidencia o tráfico ilegal de aves silvestres. (Foto: Paulo Renato Coelho Netto)
Jornalista revisita Mato Grosso do Sul com olhar crítico, memória e fotografia
Escadaria de Corumbá. (Foto: Paulo Renato Coelho Netto)

Ao falar do Estado, Paulo escolhe uma definição que resume bem seu projeto: Mato Grosso do Sul é, para ele, “um Estado de múltiplos potenciais”.

A frase abre muitas portas. Potencial para o turismo de contemplação, para o turismo de eventos, para novas rotas econômicas, para a valorização do patrimônio histórico e para uma leitura mais madura de si mesmo.

Também é uma definição que conversa com a trajetória do próprio autor. Aos 60 anos, Paulo segue viajando, pesquisando e planejando novas edições como quem ainda carrega o entusiasmo de começo de carreira. Em tom bem-humorado, ele diz que por dentro continua com 19.

Talvez seja essa mistura de rigor, inquietação e paixão que sustenta a longevidade do projeto. Desde a primeira edição, o livro já serviu de referência para pesquisadores, estudantes, professores e turistas. Agora, a ambição é ainda maior: produzir uma obra que continue útil daqui a 50 ou 100 anos. “Eu pensei em fazê-lo para ser lido em 100 anos”, conta. Enquanto a terceira edição não fica pronta, as imagens já antecipam parte dessa travessia.

O que terá na nova edição

A 3ª edição do livro Mato Grosso do Sul deve ser lançada em 2027, ano em que o Estado completa 50 anos. O projeto prevê versão impressa em formato de livro de arte, e-book gratuito e audiolivro em português, inglês e espanhol. Entre os novos temas e cenários estão a Rota Bioceânica, Serra do Amolar, Serra da Bodoquena, Morro do Paxixi, Bioparque Pantanal, Alcinópolis e capítulos voltados a patrimônio, turismo, arqueologia, infraestrutura e meio ambiente.

Para o diretor-presidente da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, Eduardo Mendes, iniciativas como essa contribuem para fortalecer a memória e a identidade do Estado. “É um projeto que dialoga diretamente com a valorização da nossa história e da nossa diversidade cultural. Trabalhos dessa natureza ajudam a organizar e difundir a imagem de Mato Grosso do Sul, ampliando o acesso da população e projetando o Estado para além de nossas fronteiras”, finaliza.

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Aos 60 anos, Paulo segue viajando, pesquisando e planejando novas edições


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