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Meio Ambiente

Banida fora do país, atrazina permanece na água consumida em MS

Estudos científicos e ação do MPF indicam que população bebe água com traços de herbicida sem saber

Por Inara Silva | 20/01/2026 08:09
Banida fora do país, atrazina permanece na água consumida em MS
Rio Paraguai, em Corumbá, no Pantanal de MS (Foto: Arquivo)

A água chega transparente ao copo. Não tem cheiro, não tem gosto e não indica perigo. Ainda assim, pode carregar um contaminante silencioso e persistente, amplamente utilizado na agricultura brasileira. Invisível a olho nu, o herbicida atrazina infiltra-se no solo, alcança rios, poços, sistemas de abastecimento urbano e até a chuva, expondo populações inteiras a um risco contínuo.

RESUMO

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A atrazina, herbicida amplamente utilizado na agricultura brasileira, tem se infiltrado em rios, poços e sistemas de abastecimento urbano, representando um risco invisível à saúde pública. O contaminante, que não é eliminado por métodos convencionais de tratamento de água, pode persistir por até 60 anos nos recursos hídricos. Estudos científicos associam a exposição à atrazina a graves problemas de saúde, incluindo riscos de câncer e alterações hormonais. O Ministério Público Federal move ações contra empresas agroquímicas e o Ibama devido à contaminação generalizada em Mato Grosso do Sul. Embora proibida na União Europeia desde 2003, a substância segue liberada no Brasil.

O problema não desaparece com o tempo nem com práticas domésticas de tratamento. Filtrar ou ferver a água não elimina o contaminante.

“A atrazina é um dos principais contaminantes de água que a gente tem hoje”, afirma o professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) Sebastião Ferreira de Lima, doutor em Produção Vegetal. Especialista em herbicidas e controle de plantas daninhas, ele reconhece a eficiência agronômica do produto. “Ela funciona bem, tem bom resultado e é barata. Esses são os pontos positivos. E acabou por aí.”

Segundo o pesquisador, o problema começa quando a molécula deixa o campo e alcança os recursos hídricos. Aplicada no solo, a atrazina pode se degradar em um período relativamente curto, dependendo das condições ambientais. “No solo, ela pode se degradar de 20 dias até seis meses”, explica.

Banida fora do país, atrazina permanece na água consumida em MS
Pesquisador coleta água em rio de Mato Grosso do Sul (Foto: Arquivo)

Persistência na água - O comportamento muda quando o herbicida é carregado pela chuva ou se infiltra até atingir rios, poços e reservatórios. “Quando ela chega à água, ela perdura por muito mais tempo”, afirma.

De acordo com o professor, mesmo sem novas fontes de contaminação, o processo natural de recuperação pode levar até 60 anos. Isso transforma a atrazina em um passivo ambiental de longo prazo.

A substância passa a circular por toda a bacia hidrográfica. “As áreas de milho se conectam a outras regiões por meio dos rios. Não é por causa de milho no Pantanal que a água chega contaminada lá, é por causa das águas que vêm de áreas agrícolas”, diz, lembrando que a atrazina é usada principalmente nessa cultura.

Exposição contínua - O risco, segundo ele, não está apenas na presença pontual do produto, mas na exposição contínua e cumulativa. “As pessoas se contaminam sem saber. Você acha que está se hidratando e está tomando um veneninho ali”, afirma.

Ferver a água não resolve. “Ela é uma molécula química. Isso não quebra a molécula. Ou você usa reações químicas complexas ou microrganismos específicos para degradar.”

Esse segundo caminho, chamado de biorremediação, ainda está em fase experimental. O pesquisador explica que a técnica vem sendo estudada em ambiente controlado e pode se tornar uma alternativa no futuro. Ele pretende iniciar testes na região de Chapadão do Sul, onde atua.

Banida fora do país, atrazina permanece na água consumida em MS
Atrazina é usado, principalmente, nas lavouras de milho. (Foto: Aprosoja/Arquivo)

Riscos à saúde - Do ponto de vista da saúde, “já é comprovado que ela tem efeitos carcinogênicos, ou seja, ela pode levar à formação de câncer”, afirma o professor, ponderando que isso não significa que todos os expostos adoecerão. “Ela aumenta o risco. Um pouquinho hoje, mais um pouquinho amanhã, isso vai acumulando.”

Estudos científicos apontam que a atrazina está associada a efeitos graves e irreversíveis à saúde, incluindo alterações hormonais, problemas reprodutivos, prejuízos neurológicos motores, cognitivos e comportamentais, redução da função imunológica e potencial cancerígeno.

Contaminação comprovada - Em Chapadão do Sul, segundo ele, a contaminação é generalizada. “Aqui, todas as águas estão contaminadas. Nenhuma serve como água ‘limpa’ para análise, porque todas têm atrazina.”

A conexão entre os rios faz com que o problema se espalhe. “Os rios estão conectados. Tudo o que entra em um ponto vai chegar a outro.”

Ação na Justiça - Diante desse cenário, o Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul ajuizou uma Ação Civil Pública contra 29 empresas do setor agroquímico e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), apontando a poluição do solo e dos recursos hídricos da Bacia do Alto Paraguai pelo uso massivo e persistente da atrazina. A região engloba o Pantanal, uma das mais importantes bacias hidrográficas da América do Sul.

A ação se baseia em estudos científicos, incluindo uma pesquisa de campo realizada em 2018 pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), com participação de universidades e órgãos públicos. O levantamento analisou águas superficiais, subterrâneas, de abastecimento urbano e até da chuva. A atrazina foi encontrada em 15 dos 25 pontos analisados.

Banida fora do país, atrazina permanece na água consumida em MS
Rio Paraguai é o principal rio do Pantanal de MS. (Foto Silas Ismael/Arquivo)

Embora os níveis estejam dentro dos limites permitidos no Brasil, superam parâmetros internacionais mais rigorosos.

Em novembro, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública de R$ 300 milhões contra 20 empresas do setor agroquímico e o Ibama, por danos ambientais relacionados à contaminação do Rio Dourados. O processo cita estudo da Embrapa que encontrou atrazina em todas as 117 amostras coletadas em 2021 na bacia do rio e contesta a existência de “uso seguro” do produto, proibido na Europa e amplamente comercializado no Estado.

Para o MPF, o discurso do “uso seguro” não se sustenta diante dos dados científicos, principalmente quando envolve comunidades ribeirinhas que dependem diretamente da água para consumo e subsistência. Entre os pedidos estão a suspensão da venda do produto, o monitoramento ambiental e a reparação dos danos já causados.

Legislação - Banida na União Europeia desde 2003, a atrazina segue presente nos cursos de água de Mato Grosso do Sul, como indicam pesquisas realizadas no Estado.

“Na União Europeia, essa molécula é proibida. A gente não pode exportar nada para lá que tenha traço de atrazina”, lembra o professor da UFMS. Para o pesquisador, a manutenção do uso está ligada a fatores econômicos. “Vende muito, dá muito retorno. Enquanto a pressão não for grande, vai continuar.”

Segundo Sebastião Ferreira de Lima, alternativas existem e o uso da atrazina já vem diminuindo em algumas regiões. “Hoje há outros produtos e sistemas de manejo. O problema não é falta de opção, é decisão.” Para ele, a questão não é se a atrazina será proibida, mas quando. “Esse produto já deveria ter sido proibido,” conclui.

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